A corrente comercial entre Brasil e China – isto é, o total de exportações e importações entre os dois países – bateu recorde em 2025. De acordo com relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), divulgado nesta terça-feira (13/01), o intercâmbio comercial alcançou cerca de US$ 171 bilhões no ano passado. Em segundo lugar aparecem os Estados Unidos, com aproximadamente US$ 83 bilhões, pouco menos da metade do volume registrado com a China.
Para se ter dimensão da importância dessa relação, a China responde atualmente por 27,2% de toda a corrente comercial brasileira com o mundo. Nesse intercâmbio, o Brasil apresenta saldo positivo na balança comercial: em 2025, foram US$ 100 bilhões em exportações e US$ 71 bilhões em importações. A soja permanece como o principal produto exportado, representando mais de um terço do valor total enviado ao país asiático. Do lado das importações, destacam-se veículos elétricos e híbridos, fertilizantes, produtos químicos, entre outros bens industriais.
A centralidade da China no comércio exterior brasileiro, no entanto, não é um fenômeno recente nem episódico. Desde o início dos anos 2000 – e de forma ainda mais acentuada após a crise financeira internacional de 2008 – o país asiático consolidou-se como o principal parceiro comercial do Brasil, superando os Estados Unidos e a União Europeia. Esse movimento reflete tanto a ascensão chinesa na economia mundial quanto as transformações na divisão internacional do trabalho.
Agressividade dos EUA impõe ao Brasil a busca por novos mercados
A política agressiva do governo Trump em relação à América Latina – seja por meio do tarifaço, seja pela postura arbitrária frente à Venezuela – tem pressionado o Brasil a acelerar movimentos de maior abertura comercial com outras regiões do mundo. Foi nesse contexto que, na última semana, o país liderou a aprovação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, apesar das inúmeras críticas e interpretações divergentes que o cercam.
Por um lado, o acordo pode contribuir para reduzir a dependência brasileira em relação aos Estados Unidos, sendo interpretado como um movimento de relativo afastamento do imperialismo norte-americano. Por outro, ele reafirma a posição dependente e quase colonial do Brasil na divisão internacional do trabalho, consolidando o país como exportador de produtos agrícolas e importador de tecnologias e bens industriais europeus. Em uma imagem sintética: o Mercosul vende carne e compra carros.
Fortalecer a cooperação Sul–Sul
Mais do que nunca, o fortalecimento da cooperação Sul–Sul é um imperativo estratégico para o Brasil. Para além da China, o país deve aproveitar seu papel de destaque nos BRICS para ampliar suas relações comerciais com outras nações do Sul Global, como a Índia, os países africanos e os próprios vizinhos da América Latina. Ainda assim, essa estratégia não pode se limitar à diversificação de parceiros comerciais, sob o risco de apenas reproduzir, em novos eixos geográficos, antigas formas de dependência econômica.
Investir em complexos industriais
O Brasil não pode permanecer restrito ao papel de mero exportador de commodities, seja para a União Europeia, seja para a China. A superação dessa condição exige investimentos consistentes na construção de complexos industriais capazes de produzir bens com maior valor agregado e conteúdo tecnológico, articulando setores como energia, saúde, defesa, infraestrutura e inovação.
Nesse processo, o papel do Estado é decisivo. Experiências históricas de desenvolvimento econômico demonstram que a industrialização não ocorre espontaneamente por meio das forças de mercado, mas requer planejamento, coordenação e financiamento públicos. No caso brasileiro, instituições como o BNDES e a FINEP desempenham papel central no fomento à inovação, no fortalecimento das cadeias produtivas nacionais e no apoio a setores estratégicos de conteúdo tecnológico. Retomar e ampliar o uso desses instrumentos é condição indispensável para que o Brasil rompa com a lógica da dependência primário-exportadora e transforme sua inserção internacional em um vetor de desenvolvimento soberano.
Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UCAM.




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