Por André Victor Mendes Rosa

A concepção estratégica de dissuasão é um pilar central na arquitetura de segurança da República Popular da China, informando sua política de defesa e projeção de poder. Longe de ser um mero conceito acadêmico, a dissuasão, na perspectiva de Pequim, representa a capacidade de moldar o cálculo estratégico de adversários, persuadindo-os a abster-se de ações que ameacem os interesses nacionais fundamentais da China. Este mecanismo opera por meio de uma ameaça crível de retaliação, que não se baseia apenas na promessa de punição, mas também na capacidade demonstrada de frustrar as ambições de um oponente, uma abordagem conhecida como dissuasão por negação [1]. A literatura especializada define a dissuasão como a arte de influenciar o comportamento de um adversário pela ameaça do uso da força, visando prevenir a escalada de tensões ou a eclosão de conflitos abertos [2]. A eficácia desta doutrina depende de um conjunto de fatores interdependentes que são meticulosamente calibrados pelos estrategistas chineses.

A lógica do cálculo custo-benefício, inerente à dissuasão, alinha-se com a visão realista das relações internacionais, na qual a competição por poder e segurança é uma constante. Neste cenário, a dissuasão emerge como um instrumento para a manutenção do equilíbrio de poder regional e global, um objetivo primordial para Pequim [2]. A complexidade da dissuasão reside em sua natureza psicológica e na interdependência de seus componentes. Como aponta a literatura especializada, a eficácia da dissuasão é inerentemente instável e altamente sensível ao contexto e às percepções mútuas [3]. Uma falha na comunicação ou uma interpretação equivocada da capacidade ou da determinação chinesa pode levar ao fracasso da dissuasão.

O Exército de Libertação Popular e a Evolução da Dissuasão

A dissuasão tem sido indispensável para os interesses de soberania e desenvolvimento do Partido Comunista da China (PCCh), transformando-se em uma ferramenta indispensável, particularmente no que tange à questão de Taiwan e às disputas territoriais da China, como exemplo, as Ilhas Senkaku e Dyao, o Mar Meridional e o Mar do Sul da China, dentre outros. A trajetória do Exército de Libertação Popular (ELP), de uma força guerrilheira insurgente para um dos exércitos mais formidáveis do mundo, reflete a evolução de sua doutrina estratégica e o poderio de suas capacidades estatais. Inicialmente forjado nos campos de batalha da Guerra Civil Chinesa, o ELP consolidou-se como uma força de combate convencional, modernizando-se com armamentos soviéticos e com o material bélico capturado das forças nacionalistas do Kuomintang (KMT), lideradas por Chiang Kai-shek. Hoje, a modernização militar da China visa explicitamente fortalecer sua capacidade de dissuasão, garantindo que possa prevalecer em cenários de alta intensidade e proteger seus interesses vitais em um ambiente geopolítico cada vez mais complexo.

A estratégia de defesa da República Popular da China (RPC) experimentou uma transformação profunda nas últimas décadas, particularmente a partir da década de 1990, quando as lideranças chinesas lançaram um programa de longo prazo de modernização e reforma do Exército de Libertação Popular (ELP). Durante esse período, o orçamento militar cresceu consistentemente, com aumentos de aproximadamente 11% ao ano entre 1997 e 2014, refletindo o compromisso de Pequim com a modernização de suas capacidades militares [4]. O ELP passou por uma reestruturação fundamental, reduzindo suas sete regiões militares para cinco teatros de operações, alinhados às ameaças regionais específicas. Essa reorganização incluiu a diminuição do contingente das forças terrestres e a redistribuição de efetivos para a Marinha e a Aeronáutica, evidenciando uma nova ênfase estratégica que prioriza o poder marítimo, aéreo e as capacidades no campo de mísseis, em conformidade com a evolução dos domínios e dimensões da guerra contemporânea [4].

Em sequência, o ELP iniciou uma profunda reformulação de suas capacidades de mísseis, incluindo o desenvolvimento de mísseis balísticos antinavio e a integração de sistemas C4ISR (Command, Control, Communications, Computers, Intelligence, Surveillance, and Reconnaissance), que representam o ápice da sofisticação tecnológica militar moderna [5]. Os mísseis balísticos e de cruzeiro emergiram como componentes centrais da estratégia de dissuasão chinesa, dada sua capacidade de atingir alvos estratégicos com precisão e sua importância fundamental para contrabalançar a superioridade naval e aérea dos Estados Unidos na região do Indo-Pacífico. O programa de mísseis balísticos, liderado pela Força de Foguetes do ELP, recebeu investimentos substanciais que resultaram em sistemas de vanguarda, como os mísseis DF-21D (Dong Feng/Vento Leste), projetados especificamente para neutralizar a ameaça representada por grupos de porta-aviões. Esses mísseis foram desenvolvidos com tecnologia avançada de guiagem, alcançando alvos em movimento no mar, um feito que demonstrou a crescente sofisticação das capacidades chinesas e sua determinação em desafiar o domínio naval tradicional [5].

A RPC expandiu significativamente seu arsenal de mísseis de cruzeiro, como o CJ-10, um míssil de longo alcance com alta precisão, capaz de atingir alvos estratégicos em territórios inimigos. Esses sistemas foram integrados não apenas como instrumentos de defesa, mas também como elementos de uma estratégia ofensiva para criar uma zona de anti-acesso e negação de área (A2/AD, Anti-Access/Area Denial), limitando significativamente a liberdade de manobra das forças militares estrangeiras próximas ao território chinês. Esse conceito, embora seja uma criação ocidental, descreve com precisão a capacidade chinesa de criar uma bolha de proteção impenetrável ao redor de seu território, tornando extremamente arriscado para forças adversárias, como um grupo de porta-aviões americano, operar perto de sua costa [6].

Durante o desfile militar de 1999, realizado para celebrar o quinquagésimo aniversário da RPC, a China revelou uma série de mísseis DF-31, que começou a ser implantada em 2006. Ao contrário do DF-5, que era movido a combustível líquido e baseado em silo, o DF-31 era um míssil móvel de três estágios, movido a combustível sólido. Sendo um míssil de longo alcance, o DF-31A é capaz de atingir a maior parte continental dos Estados Unidos, conferindo à China uma capacidade de segundo ataque nuclear inquestionável [7]. Entre 2001 e 2010, a RPC lançou uma série de sistemas de mísseis avançados, incluindo mísseis balísticos convencionais de curto alcance como o DF-15B, variável do DF-15; mísseis de médio alcance, como os DF-21C e DF-21D; e mísseis de cruzeiro de curto e médio alcance como o DH-10 (CJ-10), além dos HN-1A e HN-2B (Hong Niao/Pássaro Vermelho) [8].

A década seguinte testemunhou o lançamento de novos sistemas ainda mais sofisticados. Em 2012, a RPC apresentou o míssil balístico de curto alcance DF-16. Em 2013, foi lançado o DF-15C, outro míssil variável do Dong Feng 15, equipado com uma ogiva de penetração na terra. No ano de 2014, o DF-26, um míssil balístico de alcance intermediário (IRBM), teve seu lançamento, marcando um ponto de inflexão na estratégia chinesa. O DF-26 foi o primeiro míssil balístico convencionalmente armado da RPC capaz de atingir Guam, território sob controle dos Estados Unidos desde o fim da Guerra Hispano-Americana (1898), onde foi assinado o Tratado de Paris. No território de Guam, os EUA possuem um ponto de apoio crucial para suas forças armadas, hospedando importantes instalações como a Andersen Air Force Base e a Apra Harbor, que abriga submarinos nucleares [8].

A Metamorfose: De Segunda Artilharia a uma Força Estratégica

A criação da Força de Foguetes do ELP (PLARF) em 2015 não foi uma simples mudança de nome. A elevação da antiga Segunda Força de Artilharia ao status de um ramo autônomo das forças armadas, em pé de igualdade com o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, foi um movimento sísmico na estrutura de defesa chinesa. Essa decisão reflete uma mudança fundamental na doutrina militar do país, que passou a priorizar o poder marítimo, aéreo e, de forma decisiva, as capacidades de mísseis, como parte de uma reestruturação mais ampla que reduziu as forças terrestres para realocar recursos e pessoal [4]. A PLARF tornou-se a guardiã do arsenal estratégico terrestre da China, responsável por todo o espectro de mísseis, desde os sistemas nucleares intercontinentais até as armas convencionais de precisão. Sua expansão e modernização têm sido vertiginosas, alinhadas a uma estratégia de dissuasão cada vez mais sofisticada e assertiva.

FIGURA 1- Mapa das Bases da Força de Foguetes da RPC

Fonte: Army University Press

A Doutrina da Dissuasão Ativa e a “Maça do Assassino”

A estratégia nuclear da China está em plena evolução, transitando de uma postura histórica de “dissuasão mínima” para uma doutrina mais robusta de “dissuasão limitada” [9]. Embora seu arsenal nuclear, estimado em cerca de 320 ogivas em 2020, seja significativamente menor que o dos Estados Unidos, ele está em constante modernização e crescimento, com a meta de dobrar de tamanho até 2030 [6, 10]. A China alcançou um ponto crucial: seu arsenal agora é considerado capaz de sobreviver a um primeiro ataque e ainda assim desferir uma retaliação devastadora [9]. No entanto, é no campo convencional que a PLARF exibe uma superioridade avassaladora. Com mais de 2.200 mísseis balísticos e de cruzeiro, é a maior força de mísseis terrestres do mundo [11]. Esse poder de fogo não é apenas numérico; ele é o pilar da estratégia chinesa de Antiacesso/Negação de Área (A2/AD). Os próprios chineses se referem a essa capacidade através do conceito de “Maça do Assassino” (shashoujian). Originário da antiquíssima cultura estratégica imperial chinesa, o termo foi resgatado para descrever o uso de tecnologias de ponta para derrotar um adversário tecnologicamente superior. Não se trata apenas de armas, mas de “métodos de combate” projetados para explorar vulnerabilidades e garantir a vitória em um conflito assimétrico [12, 13].

O inventário da PLARF é um testemunho da sofisticação tecnológica chinesa. Mísseis como o DF-21D, apelidado de “assassino de porta-aviões”, representam um salto quântico na guerra naval. Com tecnologia de guiagem avançada, ele é capaz de atingir um navio em movimento a mais de 1.500 quilômetros de distância, desafiando o domínio dos mares que os Estados Unidos mantiveram por décadas [7]. Complementando os mísseis balísticos, a China expandiu massivamente seu arsenal de mísseis de cruzeiro, como o CJ-10. Com alta precisão e longo alcance, esses sistemas são projetados para atingir alvos estratégicos em profundidade no território inimigo, desmantelando a infraestrutura crítica de um adversário [6].

O alcance global é garantido por uma família crescente de Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs). O DF-31, um sistema móvel de combustível sólido, e seu sucessor, o temível DF-41, conferem à China uma capacidade de segundo ataque nuclear inquestionável. O DF-41, em particular, é um sistema de ponta: transportado por rodovias, com um alcance de até 15.000 km e a capacidade de carregar até 10 ogivas de reentrada múltipla e independente (MIRV), ele pode atingir qualquer ponto do território continental dos Estados Unidos com uma precisão formidável [14, 15].

FIGURA 2– Mísseis da República Popular da China

A Fronteira Final: A Revolução Hipersônica

Se os mísseis balísticos e de cruzeiro representam o presente do poderio militar chinês, as armas hipersônicas são o futuro — um futuro que a China está dominando. Na terceira década do século XXI, os mísseis mais avançados da RPC para a dissuasão utilizam uma combinação de mísseis balísticos e de cruzeiro lançados do ar, da terra e do mar que podem atingir os EUA e seus respectivos aliados no teatro da Ásia-Pacífico [16]. A RPC também está desenvolvendo uma série de capacidades avançadas, como mísseis balísticos antinavio manobráveis, os mísseis de reentrada múltipla independentemente direcionada (MIRVs) e veículos planadores hipersônicos, sendo uma combinação que dificulta a capacidade de manutenção dos elementos fundamentais da projeção do poder dos EUA, como o porta-aviões e as bases aéreas avançadas [16]. Os sistemas hipersônicos, que viajam a mais de cinco vezes a velocidade do som (Mach 5), não são apenas rápidos. Sua verdadeira vantagem reside na capacidade de manobrar em pleno voo, tornando suas trajetórias imprevisíveis e praticamente impossíveis de interceptar com os sistemas de defesa atuais [15].

A China está desenvolvendo ativamente duas categorias dessas armas: os mísseis de cruzeiro hipersônicos (HCMs), propulsionados por motores scramjet, e os veículos planadores hipersônicos (HGVs), que são lançados por foguetes antes de planar em direção ao alvo [15]. O sistema DF-17 é a mais notória manifestação dessa capacidade. Lançando o planador hipersônico DF-ZF, ele combina a velocidade de um míssil balístico com a agilidade de um míssil de cruzeiro. Para os sistemas de defesa antimísseis, que dependem de trajetórias previsíveis, o DF-17 é um pesadelo. A ambiguidade aumenta com a possibilidade de armá-lo com ogivas convencionais ou nucleares, criando um dilema de escalada para qualquer adversário [9]. Em 2021, a RPC lançou o DF-17, um sistema de mísseis de médio alcance chinês equipado com um veículo de planagem hipersônico com carga útil convencional e nuclear [8].

FIGURA 3 – O Míssil Hipersônico Dongfeng-17

 O arsenal da Força de Foguetes da China (PLARF) não é apenas uma coleção de hardware militar; é o alicerce da estratégia de “Defesa Ativa” da China. Essa doutrina, central para o pensamento militar do Partido Comunista Chinês, prega uma postura defensiva na estratégia, mas resolutamente ofensiva no combate, encapsulada no princípio: “não atacaremos se não formos atacados, mas certamente contra-atacaremos se formos atacados” [17]. Os Livros Brancos de Defesa da China deixam claro que o objetivo é proteger a soberania, a segurança e os interesses de desenvolvimento do país. Isso inclui a defesa intransigente de seus interesses marítimos, a oposição a qualquer movimento separatista (com destaque para Taiwan) e a proteção de seus ativos em novos domínios como o ciberespaço [18, 19].

FIGURA 4 – Trajetória comparada entre veículo de reentrada balística e veículo planador hipersônico

Fonte: SPEIER et al, 2017

A Força de Foguetes é a fiadora dessa política. Ela confere a Pequim a confiança para agir de forma assertiva no cenário internacional, sabendo que possui a capacidade de dissuadir a intervenção e, se necessário, de infligir custos inaceitáveis a qualquer adversário. O poderio da PLARF é, em última análise, a garantia de que a China não voltará a sofrer um “século de humilhação” e que, no futuro, as regras do jogo geopolítico serão, em grande parte, escritas em Pequim.

Referências

[1] SNYDER, Glenn Herald. Deterrence and Power. The Journal of Conflict Resolution, vol. 4, n. 2, p. 163-178, 1960.

[2] MORGAN, Patrick. Deterrence Now. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2003.

[3] FREEDMAN, Lawrence. Deterrence. Cambridge: Polity Press, 2004.

[4] WUTHNOW, J., & SAUNDERS, P. C. (2017). Chinese Military Reform in the Age of Xi Jinping: Drivers, Challenges, and Implications. National Defense University Press.

[5] O’ROURKE, R. (2013). China Naval Modernization: Implications for U.S. Navy Capabilities. Congressional Research Service.

[6] STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE (SIPRI). (2020). SIPRI Yearbook 2020: Armaments, Disarmament and International Security.

[7] FRAVEL, M. T. (2019). Active Defense: China’s Military Strategy Since 1949. Princeton University Press.

[8] CUNNINGHAM, J. (2024). China’s Missile Arsenal: A Comprehensive Overview. Strategic Studies Institute.

[9] MIHAL, C. J. (2021). Understanding the People’s Liberation Army Rocket Force. Military Review. Recuperado de https://www.armyupress.army.mil/Journals/Military-Review/English-Edition-Archives/China-Reader-Special-Edition-September-2021/Mihal-PLA-Rocket-Force/

[10] STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE (SIPRI). (2020). SIPRI Yearbook 2020: Armaments, Disarmament and International Security.

[11] CANCIAN, M. F. (2019). The INF Treaty and the Future of Arms Control. Center for Strategic and International Studies (CSIS).

[12] KREPINEVICH, A. F. (2010). Why AirSea Battle? Center for Strategic and Budgetary Assessments.

[13] GORMLEY, D. M. (2014). A Low-Visibility Force Multiplier: Assessing China’s Cruise Missile Ambitions. National Defense University Press.

[14] BOSBOTINIS, A. (2022). Hypersonic Weapons: A Primer. Australian Strategic Policy Institute.

[15] CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES (CSIS). (2021). China’s Military Modernization and Its Implications for the United States.

[16] CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES (CSIS). (2021). China’s Military Modernization and Its Implications for the United States.

[17] CHINA. (2021). China’s National Defense in the New Era. The State Council Information Office of the People’s Republic of China.

[18] SIMÕES, L. C.. Mudança de Maré: A (re)visão chinesa sobre o Mar do Sul da China. 1. ed. Belo Horizonte: Lemos Mídia, 2024. v. 1. 222p .

[19] CHINA. (2019). China’s National Defense in the New Era. The State Council Information Office of the People’s Republic of China.

André Victor Mendes Rosa – Doutorando em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança pela Univer­ sidade Federal Fluminense (UFF); mestre em População, Território e Estatísticas Públicas pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ence-IBGE); especialista em Gestão do Esporte pela Universidade de São Paulo (USP), e licenciado em Geografia pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP-Uerj).

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