Por Thomaz José Portugal

O Healthy China 2030 (HC 2030) não pode ser compreendido como uma política pública convencional, nem como uma simples resposta técnica a desafios sanitários. Trata-se de um instrumento estratégico de governança, concebido para reordenar a relação entre Estado, sociedade e desenvolvimento no contexto da transição chinesa para o chamado crescimento de alta qualidade. Ao elevar a saúde à condição de eixo estruturante do planejamento nacional, o Estado chinês redefine o próprio sentido de bem-estar, deslocando-o do campo restrito dos direitos sociais para o da estabilidade política, da produtividade econômica e da legitimidade estatal.

Essa opção está longe de ser neutra ou meramente administrativa: ela expressa uma racionalidade política explícita. Diante da desaceleração econômica, do envelhecimento populacional e da presença de tensões sociais latentes, a saúde passa a operar como uma infraestrutura invisível do poder, capaz de mitigar riscos sistêmicos, regular comportamentos sociais e sustentar, no longo prazo, a continuidade do projeto socialista chinês.

Planejamento estatal e ruptura com a lógica liberal de bem-estar

Diferentemente das narrativas ocidentais, que tendem a associar políticas de saúde à ampliação de direitos individuais e à desmercantilização dos serviços, o Healthy China 2030 opera segundo uma racionalidade distinta. Na experiência chinesa, a saúde é concebida, antes de tudo, como um recurso estratégico do desenvolvimento. O plano ultrapassa a mera expansão da cobertura assistencial ou a otimização de indicadores biomédicos, ao intervir diretamente na organização dos comportamentos sociais, incentivar práticas preventivas e redefinir a responsabilidade individual a partir das necessidades do coletivo.

Essa abordagem rompe com a matriz liberal do welfare state, ao revelar um modelo em que o bem-estar é funcionalizado: o cidadão saudável passa a ser compreendido como um ativo produtivo, menos oneroso e mais eficiente do ponto de vista econômico, contribuindo para maior previsibilidade e coesão social. Nesse sentido, o HC 2030 não se limita a mitigar as contradições do desenvolvimento, mas busca antecipá-las e neutralizá-las, convertendo políticas sociais em instrumentos de estabilidade estrutural.

O Healthy China 2030 como tecnologia de governo

No centro do plano reside sua função como tecnologia de governo. Ao disseminar estilos de vida considerados saudáveis, monitorar indicadores populacionais e integrar sistemas de dados em saúde, o Estado amplia sua capacidade de conhecer, gerir e intervir sobre a população. A política pública deixa de operar apenas como instrumento setorial e se converte em um dispositivo sofisticado de regulação social.

Essa dimensão costuma ser subestimada por análises que reduzem o Healthy China 2030 a uma agenda sanitária progressista. Na realidade, o plano articula prevenção, educação, políticas de saúde e big data para moldar uma população disciplinada, funcional às metas estatais e orientada à internalização de condutas socialmente desejáveis. Trata-se de uma biopolítica assumida, na qual a promoção da saúde e a gestão dos riscos sociais se entrelaçam de forma indissociável.

Centralização estratégica e adaptação territorial

A arquitetura institucional do plano articula centralização estratégica, com diretrizes emanadas do alto escalão do PCCh, e mecanismos de adaptação territorial baseados em experimentação local e ajustes iterativos. Essa combinação permite testar políticas, corrigir disfunções e escalar iniciativas bem-sucedidas sem abrir mão do controle central.

Tal arranjo desafia a premissa liberal segundo a qual a descentralização necessariamente fragiliza a autoridade estatal. No caso chinês, ela é mobilizada como instrumento de aprendizado institucional, reforçando a capacidade de coordenação e intervenção do Estado. Nesse sentido, a saúde funciona como um laboratório permanente de governança, no qual planejamento central, experimentação local e disciplina administrativa se articulam de forma orgânica.

Saúde, prosperidade comum e legitimidade política

A articulação com o discurso da prosperidade comum ilumina a dimensão política do plano, no qual o bem-estar deixa de ser concebido como concessão social e passa a operar como prova da eficácia governamental do PCCh, ancorada em uma racionalidade prospectiva e declaradamente orientada ao povo. A saúde, nesse contexto, consolida-se como vetor central de legitimação política.

Essa relevância se acentua em um cenário marcado pelo aprofundamento das desigualdades regionais e sociais. Ao prometer maior equidade em saúde e melhoria das condições de vida, o Estado constrói e sustenta uma narrativa de desenvolvimento socialmente inclusivo, capaz de articular crescimento econômico, coesão social e estabilidade política.

Implicações estratégicas

O HC 2030 evidencia que, na China contemporânea, as políticas públicas operam como instrumentos de poder. Integrada ao planejamento de longo prazo, a saúde converte-se em pilar da governança nacional, entrelaçando crescimento econômico, estabilidade social e autoridade política.

Desconsiderar essa estratégia resulta em leituras reducionistas, que veem a política chinesa de saúde como uma imitação tardia de modelos ocidentais. Ao contrário, o plano consagra um modelo autônomo de bem-estar, afinado ao socialismo com características chinesas e à primazia do planejamento estatal. Não se trata da universalização de direitos nos moldes liberais, mas da salvaguarda de um projeto político que sustenta e impulsiona a ascensão chinesa no século XXI.

Thomaz José PortugalPesquisador, mestre e doutorando em Sociologia Política pelo IUPERJ/UCAM.

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