Não é segredo que a China vem protagonizando uma intensa disputa econômica com os Estados Unidos. Embora a guerra tarifária e a corrida tecnológica sejam os aspectos mais visíveis desse confronto, eles estão longe de esgotar o conflito. Paralelamente, e de forma muito mais silenciosa, Pequim tem atuado em um campo menos perceptível, porém estratégico: o financeiro.
Por meio de ajustes graduais em suas reservas internacionais — especialmente na venda de títulos do Tesouro norte-americano —, a China tem contribuído para reconfigurar o equilíbrio econômico-financeiro global e pressionado, ainda que indiretamente, a economia dos Estados Unidos.
A redução das participações chinesas em títulos do Tesouro dos EUA atingiu em 2025, o menor nível desde a crise financeira global de 2008, sinalizando uma mudança estrutural na gestão das reservas internacionais do país.
Segundo dados do United States Department of the Treasury, a China passou a deter cerca US$ 686 bilhões em dívida pública americana, quase metade do pico registrado em 2013, quando suas posições ultrapassavam US$ 1,3 trilhões.
Reportagens do Finacial Times e da Bloomberg destacam que, apenas entre janeiro e novembro de 2025, Pequim reduziu suas posições em aproximadamente US$ 115 bilhões, um ritmo que vai além de ajustes rotineiros de portfólio e aponta para uma recalibração estratégica mais profunda.
Essa estratégia ganhou maior nitidez após notícias de que reguladores chineses orientaram bancos e instituições financeiras domésticas a limitarem e reduzirem sua exposição aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Segundo informações divulgadas pela Bloomberg e pela Anadolu Agency, a recomendação teria partido de órgãos ligados à State Administration of Foreign Exchange, e teria como justificativa o risco de concentração excessiva, volatilidade dos mercados e o aumento das incertezas geopolíticas.
Ao sinalizar diretamente aos bancos uma mudança de postura, Pequim reforça que a venda de Treasuries não se trata apenas de um movimento técnico de mercado, mas de uma diretriz estratégica coordenada, alinhada à política externa e à segurança financeira nacional.
Paralelamente, dados oficiais indicam que parte relevante dos recursos liberados com a redução dessas posições vem sendo redirecionada para ativos alternativos, com destaque o ouro. O Banco Popular da China acumula compras do metal há 15 meses consecutivos, elevando suas reservas oficiais para mais de 74 milhões de onças.
Analistas sugerem, contudo, que o volume real pode ser significativamente maior, uma vez que aquisições adicionais podem ocorrer por canais não imediatamente refletidos nas estatísticas oficiais. Esse processo tem sido interpretado como uma proteção contra riscos fiscais, monetários e geopolíticos associados à expansão do endividamento público dos Estados Unidos.
A China não está isolada nesse movimento. Outros países do grupo BRICS também vêm reduzindo gradualmente sua exposição à dívida soberana americana, reforçando a percepção de uma tendência mais ampla de diversificação das reservas globais e de questionamento da centralidade absoluta dos ativos denominados em dólar. Ainda que esse processo seja lento e incremental, ele aponta para transformações de longo prazo na arquitetura financeira internacional.
A reação dos Estados Unidos a essa estratégia chinesa, contudo, tampouco tem sido passiva. Donald Trump, ao articular a nomeação de Kevin Warsh para o comando do Federal Reserve, enviou um sinal claro ao mercado financeiro: a trajetória de queda dos juros norte-americanos tende a ser mais lenta.
Essa sinalização atua diretamente sobre as expectativas, reduzindo a pressão por uma desvalorização acelerada do dólar e reforçando sua atratividade relativa no sistema financeiro internacional.
Com um dólar mais forte, ativos tradicionalmente utilizados como proteção – como ouro e prata – tendem a perder parte da sua tração no curto prazo, à medida que o retorno relativo dos ativos denominados em dólar se torna mais competitivo. Esse movimento cria uma tensão adicional para a estratégia chinesa.
Sob a liderança de Xi Jinping, a China opera um comércio exterior que supera os US$ 6 trilhões anuais e busca ampliar de forma consistente o uso do yuan em transações internacionais.
Para sustentar esse processo de internacionalização da moeda, Pequim necessita reforçar a credibilidade e o lastro de seu sistema monetário – papel que vem sendo desempenhado, em grande medida, pelo acúmulo estratégico de ouro e prata.
Entretanto, a estratégia defensiva adotada por Donald Trump carrega um componente paradoxal e, em certa medida, autoerosivo. À medida que a China reduz sua exposição aos Treasuries e os despeja no mercado, o governo dos Estados Unidos passa a depender de juros mais elevados para continuar financiando sua dívida.
Esse mecanismo pressiona o custo do endividamento público, amplia o déficit fiscal e encarece o financiamento tanto da inovação tecnológica quanto do comércio internacional.
Os efeitos dessa dinâmica não se restringem às contas do Estado. O aumento estrutural dos juros afeta diretamente a economia doméstica, reduzindo o poder de compra da população norte-americana. Crédito mais caro para a aquisição de moradia, veículos e educação superior torna o chamado “sonho americano” progressivamente mais distante aprofundando tensões sociais e econômicas internas.
Essa erosão também se manifesta no plano monetário internacional. Para se ter dimensão do processo, no início dos anos 2000 o dólar representava cerca de 70% das reservas globais; em 2025, essa participação recuou para aproximadamente 58%.
Embora o dólar permaneça a principal moeda de reserva do mundo, a tendência aponta para uma perda gradual de centralidade, resultado combinado do crescimento do endividamento norte-americano, da instrumentalização geopolítica do sistema financeiro e da busca de alternativas por grandes economias – com destaque para a China.
Nesse sentido, a tentativa de sustentar a hegemonia do dólar por meio de juros elevados e atração de capitais de curto prazo pode, no longo prazo, acelerar justamente o processo que se pretende conter: a fragmentação do sistema monetário internacional e a lenta, porém contínua, redistribuição do poder financeiro global
Em contrate com a postura defensiva adotada por bancos centrais e gestores de reservas soberanas, o setor privado norte-americano – especialmente o de tecnologia – tem intensificado sua presença nos mercados de dívida.
Empresas de tecnologia passaram a responder por uma parcela recorde da emissão de títulos corporativos, impulsionadas pela necessidade de financiar investimentos em larga escala em inteligência artificial, data centers e capacidade computacional avançada.
Essa justaposição revela uma nova dinâmica dos fluxos globais de capital: enquanto os Estados priorizam resiliência, diversificação e mitigação de riscos associados à desdolarização, as empresas americanas continuam explorando a profundidade e a liquidez dos mercados financeiros dos EUA para sustentar uma nova onda de expansão tecnológica.
O Bitcoin também pode estar nesse jogo
Depois de atingir um recorde histórico em outubro de 2025, quando chegou a aproximadamente US$ 126 mil, o Bitcoin iniciou uma forte trajetória de queda, alcançando cerca de US$ 63 mil em fevereiro, o que representa uma desvalorização de 50% em apenas quatro meses. Nesse período, estima-se que aproximadamente US$1,5 trilhão em valor de mercado tenha evaporado, configurando a pior correção desde o colapso da FTX, em 2022.
O movimento ocorreu em meio à euforia do mercado após a aprovação da regulamentação dos ETFs de Bitcoin, que sinalizava que Wall Street, mais do que nunca, estava embarcando no mercado de criptoativos. A correção subsequente expôs, contudo, a elevada volatilidade do setor e a sensibilidade desses ativos às mudanças nas condições financeiras globais.
A maior parte das análises aponta múltiplos fatores explicativos para esse movimento. Alguns atribuem a correção à atuação do Federal Reserve, em razão da manutenção dos juros em patamares elevados por mais tempo, o que reduz a atratividade de ativos mais arriscados.
Outros destacam que a instabilidade no mercado de ações de tecnologia (tech stocks) tem ampliado as incertezas e provocado uma realocação defensiva de portfólios. Há ainda quem responsabilize o alto grau de alavancagem acumulado no mercado de criptoativos, que intensificou as liquidações em um cenário adverso.
Por fim, parte das análises aponta para o impacto regulatório das regras mais rigorosas impostas pelo Basel Committe on Banking Supervision (BCBS), que passou a exigir um requisito de capital de 1.250% para exposição a criptoativos.
Essa exigência torna a custódia do Bitcoin significativamente mais cara do que a de outras classes de ativos, desestimulando a participação direta de instituições financeiras tradicionais no mercado.
Mas há outro elemento pouco mencionado nesse debate: a China. Desde 2021, por meio do aviso “Sobre a prevenção e repressão adicionais aos riscos da especulação em transações com moedas virtuais”, o país já havia proibido a comercialização de criptomoedas em seu território. Nos últimos meses, contudo, o governo chinês passou a ampliar tanto a proibição quanto os mecanismos de fiscalização, aprofundando o controle estatal sobre esse mercado.
No final de maio de 2025, a China implementou uma nova rodada de restrições às atividades com criptoativo, abrangendo a negociação, a mineração e a posse individual de ativos digitais. A medida aprofundou a política restritiva iniciada nos anos anteriores e reforçou a posição oficial de que criptomoedas privadas configuram atividades financeiras ilegais no país.
Já no final de novembro, o Banco Popular da China reforçou essas medidas proibitivas, ampliou os alertas sobre os riscos associados ao comércio de moedas virtuais e determinou o fechamento de milhares de máquinas de mineração na região de Xinjian.
Estimativas do setor indicam que cerca de 400 mil rigs foram desligados, correspondendo a aproximadamente 1,3 gigawatss (GW) de capacidade energética desconectada do sistema. Essa operação provocou uma queda de cerca de 8% de hashrate global do Bitcoin, evidenciando o impacto direto das decisões regulatórias chinesas sobre a infraestrutura mundial de mineração de criptoativos.
Com isso, os mineradores são forçados a esgotar suas posições em BTCs para cobrir custos operacionais, o que tende a pressionar o preço do ativo no curto prazo. Trata-se de um movimento de liquidação operacional provocado po choques regulatórios, energéticos e financeiros, que aumentam a oferta no mercado em momentos de fragilidade da demanda.
No longo prazo, contudo, a dinâmica é mais complexa e envolve outros elementos estratégicos. Ativos tradicionais como ouro e prata passam a colocar em xeque a tese de que o Bitcoin seria um importante ativo com capacidade de reserva de valor em um cenário de crise monetária, especialmente observado a partir de uma lógica geopolítica. Esse movimento não ocorre de forma espontânea, mas de maneira articulada pela China, que vem reposicionando seus instrumentos de poder financeiro.
Como já mencionado, Pequim deu ordens explícitas para reforçar suas reservas de ouro, utilizando o metal como lastro estratégico diante da volatilidade do sistema financeiro internacional e da centralidade do dólar. No entanto, há um outro mineral fundamental nesse tabuleiro e frequentemente subestimado: a prata.
Em 1º de janeiro de 2026, a China implementou controles de exportação sobre prata, tungstênio e o antimônio, restringindo as autorizações de exportação a apenas 44 empresas aprovadas pelo governo. A medida ganha ainda mais relevância quando combinada ao fato de que o país detém entre 60% e 70% da capacidade global de refinamento da prata, além de ter elevado oficialmente o metal ao status de material estratégico, equiparando-o às terras raras.
Com esses dois movimentos – controle da oferta externa e domínio da capacidade de refino –, a China passou a condicionar a disponibilidade global de ouro e prata, alterando expectativas e preços no mercado internacional. Como resultado, no último ano, o ouro acumulou uma valorização próxima de 65%, enquanto a prata registrou uma alta ainda mais expressiva, em torno de 140%.
Esse desempenho relativo tem atraído fluxos de capital antes direcionados a criptoativos para ativos tradicionais com histórico consolidado de reserva de valor, especialmente em um ambiente marcado por incertezas monetárias, geopolíticas e regulatórias.
Nesse contexto, as criptomoedas passam a enfrentar uma concorrência mais dura não apenas no plano regulatório, mas também no plano simbólico e financeiro. Se ativos físicos estratégicos oferecem previsibilidade, controle estatal e escassez administrada, parte do capital tende a migrar para essas alternativas.
Caso esse movimento se prolongue, ele pode redefinir o equilíbrio do mercado de criptoativos, pressionando sua narrativa como reserva de valor e abrindo espaço para uma dinâmica de perda cumulativa de liquidez e relevância – ainda que não necessariamente irreversível.
Tomados em conjunto, esses movimentos sugerem que o sistema financeiro internacional atravessa uma fase de transição. Se essa divergência entre estratégias soberanas e dinâmicas corporativas será temporária ou estrutural permanece em aberto — mas é justamente essa tensão que pode definir o próximo capítulo da ordem econômico-financeira global.
Luis Carlos Pereira é economista, mestre em Economia Política pela PUC-SP e especialista em Gerenciamento de Projetos pela FGV. É diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach) e desenvolve pesquisas nas áreas de educação, financiamento público e desenvolvimento econômico.




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