“We will drill, baby, drill”. Essa frase, repetidamente evocada por Donald Trump durante a campanha de 2024 e após sua posse em 2025, sinaliza uma política de retomada e expansão da produção petrolífera nos Estados Unidos como o centro de seu projeto político, ao mesmo tempo em que relativiza os impactos ambientais e climáticos decorrentes da queima de combustíveis fósseis.
É difícil imaginar, nas próximas décadas, um mundo em que o petróleo deixe de ocupar uma posição estratégica e o centro das disputas entre Estados, mesmo diante dos alertas sobre a crise climática e dos acordos multilaterais de redução de emissões. Concomitantemente, convém observar que não apenas os riscos climáticos – físicos e de transição -, mas também as transformações econômicas e geopolíticas globais apontam para um futuro em que a ausência de diversificação das fontes energéticas pode significar perda de competitividade e de protagonismo global.
Marx e Schumpeter enfatizaram a centralidade da inovação e do desenvolvimento das forças produtivas como motores da competição e do crescimento econômico no capitalismo. Carlota Perez e Christopher Freeman[1] acrescentaram a ideia de revoluções tecnológicas e paradigmas tecnoeconômicos que estruturam novos ciclos de transformação econômica, cujo alcance se espalha por todas esferas da sociedade. O domínio do aço, da máquina a vapor e do carvão contribuiu para a hegemonia britânica entre os séculos XVIII e XIX; ondas subsequentes, como a eletrificação, a indústria química, a eletrônica, a petroquímica e, por fim, a tecnologia da informação, contribuem para sustentar a hegemonia dos Estados Unidos há quase dois séculos.
Entre os diferentes paradigmas tecnológicos, as fontes de energia são elementos centrais, pois funcionam como insumos essenciais para outras inovações, para o processo produtivo e para o padrão de consumo estabelecido. Ao longo do século XX, o petróleo consolidou-se como commodity-chave: a massificação do automóvel, a aviação civil, o transporte internacional de cargas, a produção de plásticos e a geração de energia tornaram a sociedade profundamente dependente dessa matéria-prima. Por décadas, finanças e geopolítica têm-se articulado em torno da dependência desse hidrocarboneto.
Historicamente, os EUA dominaram o mercado petrolífero e, até hoje, são importantes produtores de óleo cru.[2] Outras regiões com grandes reservas, em especial o Oriente Médio, sofreram intervenções políticas e militares por parte do imperialismo estadunidense. Na América Latina, políticas de pressão e sanções foram empregadas contra países cuja produção interessava a potências externas; o caso da Venezuela é ilustrativo, chegando ao ápice de uma intervenção ilegal em 2026, que culminou no sequestro de seu presidente.
Embora o controle de campos, infraestrutura de produção e rotas de transporte de petróleo continue central nas disputas geopolíticas e econômicas globais, a ascensão da China e uma nova onda de inovações tecnológicas apontam para uma trajetória alternativa na próxima década. Ao lado da digitalização, tecnologias de eficiência energética e energias renováveis tem ganhado espaço, não apenas pelas preocupações com o esgotamento de combustíveis fósseis e a necessidade de reduzir emissões, mas também em razão do aumento substancial da demanda elétrica associado a datacenters, Inteligência Artificial e à rápida adoção de veículos elétricos (VEs).
É importante lembrar que a China nunca contou com grandes reservas petrolíferas, nem mesmo para satisfazer sua imensa demanda doméstica e, por isso, durante décadas, construiu seu desenvolvimento sobre uma base energética fortemente ancorada no carvão. Apesar disso, há algum tempo os chineses compreenderam que a ausência de petróleo em seu território, a disputa global por essa commodity, a dependência de importações, o alto custo da queima do carvão e a evolução das novas tecnologias exigiam planejamento estatal e investimento robusto em energias alternativas capazes de sustentar o padrão de desenvolvimento econômico e científico alcançado pelo país. A isso somam-se preocupações legítimas com os impactos da queima de combustíveis fósseis, a crescente escassez de recursos naturais finitos e os riscos financeiros inerentes a esses processos.
Globalmente a demanda por derivados do petróleo tem desacelerado, com um acréscimo de apenas 0,8% em 2024, conforme registrado pela Agência Internacional de Energia (IEA), ao mesmo tempo em que a maior penetração de veículos elétricos elevou o consumo de eletricidade no transporte em mais de 8% no mesmo ano.[3] Enquanto os EUA ainda apostam alto em maior eficiência no uso de combustíveis fósseis – com papel complementar de biocombustíveis -, a China já concentra níveis expressivos de penetração em novas trajetórias. Em 2023, a China concentrava cerca de 70% dos registros de caminhões elétricos e em 2024 foi responsável por 2/3 das vendas de carros elétricos; o país tornou-se, ademais, o principal produtor de baterias e responsável por parcela decisiva das vendas globais de veículos elétricos (VEs). Em 2025, a chinesa BYD superou a estadunidense Tesla em vendas globais de VEs.[4]
Além disso, a China dispõe de parcela significativa das reservas de minerais críticos e terras raras, sendo líder isolada na tecnologia de refino e responsável por mais de 90% de todo processamento de alguns desses materiais, conferindo-lhe vantagem estratégica na produção de ímãs, baterias e outros componentes centrais à eletrificação.[5] Nesse contexto, a América Latina aparece como território disputado: não só como mercado consumidor em potencial para VEs, mas também como fonte de reservas de minerais críticos que, em conjunto com a oferta chinesa, podem concentrar parcela significativa da disponibilidade global.
O setor de geração de energia também tem sido destaque no país asiático. Na Energia Solar, a China foi responsável pela produção de 85% das células e 78% dos módulos fotovoltaicos.[6] Na energia eólica, em 2023 a China foi responsável por 60% da produção de turbinas, enquanto os EUA por apenas 9%.[7]
Em síntese, na corrida global pela eletrificação e pela energia limpa, a China é liderança isolada, sobretudo no plano produtivo-industrial e de escala. Embora os EUA ainda detenham elevado potencial tecnológico, controle de cadeias de valor estratégicas e domínio sobre o sistema financeiro internacional, enfrentam crescentes dificuldades para recompor sua posição frente à competição chinesa, aprofundando pressões estruturais associadas ao declínio de sua hegemonia. A estratégia do governo Trump, marcada por autoritarismo e novas investidas imperialistas, permanece fortemente dependente do petróleo. Mesmo com a busca por minerais críticos e energia renovável em regiões como a Groenlândia e a América Latina, essa dependência e a fragilidade industrial em renováveis podem reforçar ainda mais o declínio da hegemonia dos EUA num futuro não tão distante.
Referências:
FREEMAN, C. Inovação e ciclos longos de desenvolvimento econômico. Porto Alegre: Ensaios FEE, v. 5. p. 5-20, 1984.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
PEREZ, C. Technological revolutions and techno-economic paradigms. Cambridge Journal of Economics, v. 34, p. 185-202, 2010.
SCHUMPETER, Joseph Alois. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.
INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). World Energy Outlook 2025. Paris: IEA, 2025. Disponível em: https://www.iea.org/reports/world-energy-outlook-2025
Notas
[1] FREEMAN, C. Inovação e ciclos longos de desenvolvimento econômico. Porto Alegre: Ensaios FEE, v. 5. p. 5-20, 1984.
PEREZ, C. Technological revolutions and techno-economic paradigms. Cambridge Journal of Economics, v. 34, p. 185-202, 2010.
[2] https://ourworldindata.org/grapher/oil-production-by-country#sources-and-processing
[3] https://www.iea.org/reports/global-energy-review-2025/
[4] https://www.iea.org/reports/global-energy-review-2025/electricity
[5] U.S. Geological Survey, 2025, p. 145.
[6] https://www.iea.org/data-and-statistics/charts/china-s-share-in-global-pv-manufacturing-capacity-2024-and-2030
[7] https://www.reuters.com/business/energy/chinas-dominance-wind-turbine-manufacturing-2024-04-10/?utm_source=chatgpt.com
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Iago Montalvão – Doutorando em Economia no Instituto de Economia da Unicamp, mestre pela mesma instituição e bacharel em Economia pela FEA-USP. Atualmente coordena o Think Thank Transforma-Unicamp e é pesquisador no Instituto Nacional de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.




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