Desde a década de 1970, a Marinha do Exército de Libertação Popular da China (MELP) reconhecia a necessidade de estabelecer uma capacidade naval de projeção de poder. O ELP não possuía uma força naval capaz de competir com os grupos de porta-aviões dos Estados Unidos e tal necessidade se expressou de maneira mais acentuada na IIIª Crise do Estreito de Taiwan (1995/1996). Diante da superioridade das forças americanas no Estreito de Taiwan, a liderança chinesa reconheceu que a prosperidade econômica, por si só, não era suficiente para salvaguardar a segurança nacional. Tornou-se imperativo investir na modernização do Exército de Libertação Popular (ELP), com foco na criação e aprimoramento de sistemas de mísseis balísticos e de cruzeiro, bem como no desenvolvimento de porta-aviões, que se tornaram os pilares da estratégia de dissuasão chinesa nas décadas subsequentes (Teixeira Júnior, 2019).
No entanto, a experiência da crise impulsionou a formulação de uma estratégia de longo prazo para o desenvolvimento de porta-aviões, transformando a Marinha do ELP em uma força mais equilibrada e ofensiva. Apesar da construção recente e do foco em porta-aviões, Liu Huaqing (1916-2011), comandante da Marinha do Exército de Libertação Popular (PLAN) de 1982 a 1988 e membro da Comissão Militar Central (CMC) – sendo seu vice-presidente de 1992 a 1997 -, defendeu vigorosamente as operações com porta-aviões. Contudo, suas ideias não foram inicialmente endossadas pela liderança chinesa (Cimsec, 2014). Huaqing é mais precisamente descrito como um oficial das forças terrestres do ELP com características navais, dada a maior parte de sua carreira militar no exército, o serviço (ainda) dominante do ELP — o fato de ele ser mais frequentemente chamado de “general” do que de “almirante” corrobora essa observação (Cimsec, 2014).
A visão estratégica de Liu Huaqing para o desenvolvimento naval chinês repousava sobre quatro convicções fundamentais, intimamente articuladas entre si. Em primeiro lugar, ele entendia que a China precisava de uma marinha genuinamente poderosa para salvaguardar seus interesses no mar, que cresciam em importância à medida que o país se expandia econômica e geopoliticamente.
Em segundo lugar, defendia que a estratégia naval não poderia existir de forma isolada, mas deveria estar integrada aos objetivos nacionais mais amplos — foi esse princípio que orientou a adoção da doutrina de “Defesa Offshore”, garantindo que as operações da Marinha do ELP estivessem em plena sintonia com as demandas militares do Estado.
Em terceiro lugar, Liu sustentava que as capacidades operacionais deveriam ser construídas a partir de uma visão estratégica prévia, e não o contrário: a “Defesa Offshore” foi adotada antes mesmo de a Marinha dispor dos meios necessários para executá-la plenamente, o que criou um imperativo de investimento e modernização contínua.
Por fim, ele reconhecia que nenhuma transformação institucional de tal magnitude poderia avançar sem respaldo político, e foi exatamente essa influência que exerceu com determinação, sobretudo durante os anos em que ocupou a vice-presidência da Comissão Militar Central, na década de 1990.
Lamentavelmente, Liu Huaqing não viveu para ver concretizado o projeto ao qual dedicou décadas de esforço. O primeiro porta-aviões chinês, o Liaoning, foi comissionado em 2012 — um ano após sua morte. Adaptado de um casco inacabado adquirido da Ucrânia, o antigo Varyag, pertencente à classe Kuznetsov, o navio passou por uma extensa reforma antes de integrar a frota. Com propulsão convencional e deslocamento de aproximadamente 60.000 toneladas, o Liaoning opera com um sistema de decolagem por rampa inclinada, que permite o lançamento de aeronaves sem o uso de catapultas. Sua capacidade operacional abrange cerca de 40 aeronaves, entre caças J-15 e helicópteros de apoio. Mais do que um instrumento de guerra, o Liaoning representou um marco simbólico: a afirmação da China como uma potência naval em ascensão, capaz de projetar força além de suas costas e demonstrar ao mundo o alcance de sua evolução tecnológica e militar.

Figura 1: Antes e depois do Varyag que se tornou o porta-aviões Liaoning.
Foto: Poder Naval, 2024.
O segundo lançamento é o porta-aviões Shandong, o primeiro navio desse tipo integralmente construído na China. Ele possui uma capacidade superior ao primeiro porta-aviões do país, podendo transportar 50% mais aeronaves de combate. Contudo, seu desempenho ainda é inferior ao dos porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos. O Shandong é o primeiro porta-aviões de propulsão convencional desenvolvido inteiramente em território chinês. Sua incorporação oficial à frota ocorreu em 17 de dezembro de 2019, marcando o início da produção nacional desses navios e estabelecendo a era dos “porta-aviões duplos” na China (China, 2025).

Figura 2: Porta-aviões Shandong. Foto: Getty Images.
Desde sua entrada em serviço, a taxa de surtidas aumentou significativamente, bem como a eficiência no reabastecimento de armamentos. Além disso, o Shandong agora é capaz de operar em missões de combate sob quaisquer condições climáticas adversas. Nos últimos cinco anos, a tripulação do Shandong, em colaboração com pesquisadores, superou mais de 100 desafios técnicos que limitavam sua eficácia em combate, resultando em centenas de avanços tecnológicos.
O Fujian, terceiro porta-aviões chinês e o mais avançado da frota, representa um avanço tecnológico substancial. Com um deslocamento estimado superior a 80.000 toneladas, ele adota o sistema CATOBAR (Catapult Assisted Take-Off But Arrested Recovery) com catapultas eletromagnéticas, tecnologia similar à empregada pelos porta-aviões mais sofisticados dos EUA. Isso permite o lançamento de aeronaves mais pesadas e equipadas, ampliando as capacidades de combate aéreo da China. Atualmente em sua quarta fase de testes no mar, o Fujian está sendo avaliado quanto ao desempenho dos sistemas de propulsão, das catapultas e das operações aéreas. A expectativa é que ele esteja plenamente operacional nos próximos anos, tornando-se um elemento-chave para a projeção da força naval chinesa. Esses testes são cruciais para validar a eficácia do sistema CATOBAR e a integração das aeronaves embarcadas.

Figura 3: O Porta-aviões Fujian. Foto: Defesa.net
Pela primeira vez, a China opera simultaneamente três porta-aviões: o Liaoning (CV-16), o Shandong (CV-17) e o Fujian (CV-18), um marco na expansão do poder naval chinês. O Fujian, o mais avançado dos três, encontra-se na quarta fase de testes marítimos, enquanto os outros dois já participam ativamente das operações da Marinha do Exército de Libertação Popular. A operação simultânea desses três porta-aviões reflete a aspiração da China de consolidar uma marinha de “nível global” até 2035. Com o intuito de expandir sua presença estratégica no Pacífico e em outras regiões, a capacidade de manter múltiplos grupos de batalha de porta-aviões fortalece sua posição em disputas marítimas e demonstra o crescente poder militar chinês.
A China deu início à construção de seu quarto porta-aviões, o Type 004 (CVN-20), no estaleiro de Dalian, no nordeste do país. O projeto representa um avanço considerável em relação aos navios anteriores: com propulsão nuclear e sistema de catapultas eletromagnéticas, o CVN-20 terá deslocamento estimado entre 110.000 e 120.000 toneladas e capacidade para mais de 90 aeronaves embarcadas, o que o tornaria possivelmente o maior navio de guerra já construído. Imagens de satélite confirmam que blocos do casco já estavam em montagem desde o segundo semestre de 2025.

Figura 4: construção do 4º Porta-aviões da China no Porto de Dalian. Fonte: Poder Naval.
Paralelamente, a China também desenvolve o Type 003A (CV-19), uma versão aprimorada do Fujian, que será construído no estaleiro de Jiangnan e manterá propulsão convencional com catapultas eletromagnéticas. Do ponto de vista estratégico, o Type 004 coloca a China em patamar próximo ao dos Estados Unidos em capacidade naval de superfície — o USS Gerald R. Ford, principal porta-aviões americano, desloca cerca de 100.000 toneladas. Com propulsão nuclear e alcance irrestrito, o CVN-20 permitirá à Marinha chinesa projetar poder de forma sustentada em regiões distantes, como o Pacífico Ocidental e o Oceano Índico, consolidando a China como uma potência naval de alcance verdadeiramente global (Poder Naval, 2025).
Referências:
CIMSEC. Liu Huaqing: The Father of the Modern Chinese Navy. 2014. Disponível em: https://cimsec.org. Acesso em: 4 mar. 2026.
CHINA. Aircraft carrier Shandong improves comprehensive combat capability, 2025. Disponível em: http://eng.mod.gov.cn/xb/News_213114/TopStories/16362406.html. Acesso em: 15/02/2025.
McDEVITT, Michael. China as Twenty First Century Naval Power: Theory, Practice and Implications. Annapolis: Naval Institute Press, 2020.
TEIXEIRA JÚNIOR, Augusto W. M. Grande Estratégia e Modernização Militar da China Contemporânea. Análise Estratégica, v. 12, p. 9-24, 2019.
NAVAL. Avança a construção do porta-aviões nuclear chinês Type 004 em Dalian. Naval, 12 nov. 2025. Disponível em: https://www.naval.com.br/blog/2025/11/12/avanca-a-construcao-do-porta-avioes-nuclear-chines-type-004-em-dalian/. Acesso em: 4 mar. 2026.
André Victor Mendes Rosa – Doutorando em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança pela Univer sidade Federal Fluminense (UFF); mestre em População, Território e Estatísticas Públicas pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ence-IBGE); especialista em Gestão do Esporte pela Universidade de São Paulo (USP), e licenciado em Geografia pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP-Uerj).




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