Durante grande parte de sua trajetória recente, a China foi identificada como o motor do mundo, impulsionando o crescimento econômico por meio da produção em larga escala e do investimento massivo em infraestrutura. No entanto, nas últimas décadas, especialmente a partir do 13˚ Plano Quinquenal (2016-2020), a diretriz central da política econômica chinesa deixou de ser apenas o crescimento acelerado do Produto Interno Bruto (PIB), passando a enfatizar a qualidade do desenvolvimento.
O 13˚ PQ marcou essa inflexão de forma explícita: priorizou inovação tecnológica, sustentabilidade ambiental e reequilíbrio regional, buscando substituir o modelo baseado em exportações por um crescimento impulsionado pela demanda interna e pelo setor de serviços. O objetivo não era apenas crescer mais, mas crescer melhor, criando uma economia mais resiliente e menos dependente de ciclos externos.
O 14˚ PQ (2021-2025) reforçou essa tendência, incorporando conceitos como Prosperidade Comum e Dupla Circulação. O primeiro traduz o compromisso do governo com um crescimento mais equitativo, reduzindo disparidades entre regiões e grupos sociais por meio de políticas de redistribuição, investimentos em bem-estar e ampliação do acesso a serviços públicos, destacadamente a saúde. Já a dupla circulação representa a nova estratégia de inserção econômica da China no mundo: o mercado interno torna-se o principal motor de crescimento, enquanto o comércio e o investimento externos complementam e fortalecem esse movimento. Em conjunto, esses princípios indicam uma mudança de paradigma, de uma economia guiada sobretudo por exportações baratas e produção em massa, para um modelo centrado em consumo qualificado, inovação e autossuficiência tecnológica. Dessa forma, o país ajusta o ritmo do crescimento à necessidade de modernização, digitalização e sustentabilidade de longo prazo.
O 15˚ PQ (2026-2030), que começa a ser implementado agora, aprofunda essa lógica de crescimento de alta qualidade. Com foco em produtividade, inovação verde e inclusão social, ele coloca a China num patamar de desenvolvimento mais equilibrado, no qual o PIB deixa de ser o único termômetro de sucesso nacional. O país busca consolidar um modelo econômico sustentável, no qual bem-estar, estabilidade e liderança tecnológica substituem a antiga busca por taxas de dois dígitos.
Em suma, o crescimento do PIB não é um problema para a China porque seu significado foi redefinido, o objetivo não é maximizar números, mas alcançar um desenvolvimento qualitativo que combine eficiência econômica, coesão social e inovação contínua. Essa transição demonstra que a China vê o crescimento não como um fim em si mesmo, mas como instrumento de modernização e fortalecimento de longo prazo.
Thomaz José Portugal – Pesquisador, mestre e doutorando em Sociologia Política pelo IUPERJ/UCAM.




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