A recente evolução discursiva do artista Ai Weiwei, marcada por declarações à CNN e por um artigo que gerou controvérsia com o jornal alemão Die Zeit, transcende uma revisão pessoal. Ela simboliza um sintoma significativo da erosão da hegemonia narrativa ocidental e da crescente atração do projeto de desenvolvimento chinês. A trajetória de um dos críticos mais midiáticos de Pequim, que agora expressa surpresa com os avanços da China e direciona seu olhar crítico para as contradições do capitalismo liberal, oferece um rico material para análise.
Weiwei reconhece factualmente conquistas que dados objetivos atestam: a China retirou mais de 800 milhões da pobreza extrema (Banco Mundial, 2021), construiu a maior rede de alta velocidade do mundo e demonstra uma capacidade de planejamento estatal de longo prazo inexistente no Ocidente anárquico. Uma verdadeira terra de oportunidades. Em contraste, ele aponta a estagnação econômica, a crise migratória e a falência institucional das democracias burguesas. E esta não é uma opinião isolada, mas ecoa estudos como os de Piketty (Capital e Ideologia, 2019), que demonstram o agravamento radical da desigualdade nas potências capitalistas.
Sua crítica à instrumentalização geopolítica dos direitos humanos pelo Ocidente desmascara a superestrutura moral de um sistema em decomposição. Enquanto os EUA lideram invasões e guerras por procuração, a Europa se perde entre falácias e trivialidades, a China se torna um farol para o mundo, promovendo projetos de infraestrutura global através do Cinturão e Rota, priorizando desenvolvimento material sobre retórica vazia. A “decadência moral” denunciada por Weiwei é a expressão fenomênica da crise orgânica descrita por Gramsci, onde a classe dominante perde sua autoridade intelectual e moral.
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Contudo, a análise materialista exige ir além da percepção individual. A força que impõe esta reavaliação até a um crítico é a realidade objetiva: o Poder de Paridade de Compra cresceu a uma média de 6,7% ao ano entre 2013-2023 (FMI, World Economic Outlook , outubro de 2023), enquanto a zona do euro mal alcançou 1,5%. O Ocidente, esgotado pela financeirização e pela superexploração neocolonial, não oferece mais um modelo viável, nem mesmo como contraponto ilusório.
Weiwei mantém reservas sobre aspectos do sistema chinês, o que reflete a complexa dialética entre liberdade individual e projeto coletivo na construção socialista. No entanto, seu reposicionamento é um indicador poderoso de que a correlação de forças mundiais mudou. A disputa ideológica já não se dá nos termos do século XX; o debate agora é entre um capitalismo senil e raivoso e um socialismo em desenvolvimento que, apesar de contradições, demonstra superioridade na elevação das forças produtivas e no bem-estar material das massas. A voz de um ex-dissidente, outrora instrumentalizado pela narrativa ocidental, que agora confronta o Ocidente com suas hipocrisias é, em si, um fato geopolítico significativo.
Rodrigo Moura Formado em Negócios Internacionais pela FGV, mestre em Estudos Chineses pela Universidade de Zhejiang. Integrou o Grupo de Estudos do Socialismo com Características Chinesas da Universidade de Zhejiang, fez parte do movimento estudantil como presidente do Conselho Internacional de Estudantes, fundou o Centro de Estudos Latinoamericanos da Zhejiang University International Business School.




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