Talvez você não seja tão cronicamente online a ponto de já ter cruzado com conteúdos classificados como “Chinamaxxing” — até porque o fenômeno tem, aparentemente, se limitado a perfis estadunidenses. No entanto, sua proliferação tem aumentado, chegando a diferentes partes do mundo e despertado a curiosidade sobre por que a juventude no país do “sonho americano”, de repente, busca referências culturais no país que hoje é o maior opositor político e econômico dos Estados Unidos.
O Chinamaxxing consiste em conteúdos — muitos criados por pessoas da Geração Z — que buscam vangloriar estilos de vida tipicamente, ou de forma estereotipada, associados a chineses. Tem sido comum ver vídeos curtos em que uma pessoa aparece agachada de cócoras (uma prática relacionada aos chineses), acompanhada da frase: “You met me on a very chinese time of my life” (“você me conheceu em um momento muito chinês da minha vida”, em tradução livre). Muitas pessoas aparecem também comendo comidas chinesas ou jogando mahjong.
A onda também pegou produtores de conteúdo chineses, tanto residentes nos Estados Unidos quanto na China. Eles brincam que “sim, se você gosta de hot pot, você agora é chinês”. E não fica só em piadas virtuais: a moda chinesa, marcada, por exemplo, por uma jaqueta da marca Adidas, se tornou desejo de fashionistas, e a música 八方来财·因果 (“Fortuna vem de todas as direções – Causa e efeito”, em tradução livre), do rapper SKAI ISYOURGOD, também conhecido como Lan Lao (揽佬), tem se tornado viral no TikTok. Nesse momento, está na moda — ou “trending” — a China, muito em parte pela atração gerada pelos grandes avanços tecnológicos que têm encantado diferentes gerações, mas em especial os mais jovens. O interessante é que, mesmo como brincadeira estética, a trend reorganiza prestígio cultural: o que antes era motivo de exotização vira referência aspiracional.
Para alguns escritores estadunidenses que têm olhado para esse fenômeno, a tendência da juventude em exaltar a cultura chinesa tem mais relação com a situação política, econômica e social que vivem os Estados Unidos do que com uma atração pela China em si. Ao mesmo tempo, parece haver uma inversão de valores, em que o Oriente passa a pautar a cultura ocidental, e não mais é uma imagem caricata, criada e moldada pelo Ocidente com o objetivo de uma dominação, o que entendemos por Orientalismo, descrito por Edward Said.
Claro que não é como se o jogo tivesse virado completamente do dia para a noite. Mas, enquanto o governo Trump impõe tarifas que encarecem a vida da população e promove uma política de guerra interna — com a atuação da polícia imigratória (ICE) — e externa — com seu apoio a Israel e com o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro —, a China parece o verdadeiro sonho de prosperidade e tecnologia que esperava-se do século XXI. Mesmo que parte da política externa do trumpismo seja, inclusive, ataques à China, não é possível esconder os avanços tanto técnicos quanto sociais que o país asiático tem apresentado.
Por mais que artigos em inglês busquem apontar o Chinamaxxing mais como uma reação à crise estadunidense, é possível argumentar que a busca por referências na China, na verdade, expressa a busca por um horizonte, uma esperança, para uma juventude que tem se mostrado cada vez mais desconectada das formas atuais de reprodução do capital e que não veem mais sentido no desgaste laboral — até porque as promessas de estabilidade já são uma história há muito ultrapassada no Ocidente. Enquanto isso, do outro lado do Oceano Pacífico, há um país que constantemente anuncia avanços significativos não apenas em relação ao seu mercado, mas na qualidade de vida de sua população. A China conseguiu erradicar a pobreza, garantir moradia para seus mais de 1,4 bilhão de habitantes, tem um salário mínimo muito superior a outros países em desenvolvimento, colocou suas universidades no topo dos rankings globais e tem avançado em tecnologias de resiliência climática e mitigação dos efeitos do aquecimento global. Parece um bom lugar para se viver.
Para uma geração que passa a integrar o mercado de trabalho durante uma crise profunda das estruturas neoliberais, e em que a extrema-direita passa a redobrar a aposta em guerras e na desigualdade para manter a atual divisão do mundo, a busca por uma alternativa é inevitável.
Vale ressaltar que, na maioria dos casos, parece que o Chinamaxxing se abstém de trazer o governo socialista para sua exaltação da China, mesmo que alguns produtores de conteúdo já estejam surfando essa onda para apresentar as melhorias que o Estado chinês tem sido capaz de promover para sua população e inserir na trend a pauta do socialismo. O que vale nossa atenção aqui é a oportunidade de diálogo que está surgindo nas redes sociais, a partir da pauta cultural e de costumes, para falarmos de socialismo com a juventude.
Gabriela Beraldo – Formada em jornalismo pela ESPM-SP, mestra e doutoranda pelo Programa de Integração da América Latina da USP (PROLAM). Atualmente é consultora na Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e integra a diretoria do CEBRACh.





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