Por Lucas Coradini *
A história raramente se repete, mas certas ideias voltam a iluminar o presente. Na década de 1960, quando teóricos latino-americanos formularam a teoria da dependência, o mundo parecia rigidamente polarizado entre centro e periferia, com os EUA no comando do capitalismo global, não obstante a confrontação com a URSS. Hoje, após três décadas de globalização liberal, o sistema internacional volta a exibir tensões estruturais, rivalidades geopolíticas e políticas econômicas abertamente protecionistas. A disputa entre Estados Unidos e China, a fragilização do multilateralismo e o ressurgimento das alianças do Sul Global tornaram o debate sobre autonomia, desenvolvimento e inserção internacional novamente relevante.
A teoria da dependência, desenvolvida por autores como Fernando Henrique Cardoso, Enzo Faletto, Ruy Mauro Marini e Theotônio dos Santos, em suas diferentes correntes, partia de uma constatação simples: o capitalismo internacional não produz convergência, produz hierarquias. No vocabulário da época, a divisão entre “centro” e “periferia” não era apenas econômica, mas tecnológica, política e institucional. A dependência era, ao mesmo tempo, um padrão de inserção internacional e uma forma de reprodução interna do subdesenvolvimento.
Se os conceitos pareceram envelhecer nos anos 1990, o mundo tratou de lhes devolver pertinência. Quando os EUA reintroduzem tarifas e sanções como instrumentos de poder, minando o “livre comércio” que antes patrocinavam, revive-se o núcleo duro da assimetria. Sanções financeiras, controle de exportações e restrições ao investimento estrangeiro direto tornam-se não apenas mecanismos de mercado, mas instrumentos de dominação e recomposição de posições perdidas. Por sua vez, a fragilização das instituições multilaterais — OMC, ONU, FMI, até o G20 — também dialoga com o diagnóstico de que a ordem liberal era menos universal do que parecia. Quando Washington escolhe agir unilateralmente ou contornar o direito internacional, evidencia-se que o multilateralismo é viável enquanto serve à potência dirigente.
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A ordem liberal perdeu a inocência, e os acontecimentos recentes assim exemplificam. A diplomacia norte-americana nos temas relacionados à Groenlândia e ao Irã se resume em coerção e subordinação política e econômica. A ofensiva sobre a Venezuela, por sua vez, com o sequestro do chefe de estado, a ameaça explícita de intervenção militar e o uso de bloqueio econômico, tornou cristalina a permanência do hemisfério como zona de influência e disciplina geopolítica. O protagonismo assumido pelos EUA faz recordar que dependência e desenvolvimento periférico são também um problema de poder e de projeção militar. Sanções, intervenção e protecionismo estratégico expõem mais uma vez ao mundo as contradições entre o discurso liberal e a práxis imperial.
Nesse contexto, a América Latina observa o cenário com ambivalência. A reprimarização das economias sul-americanas – com destaque para o Brasil e a Argentina, nos dois últimos ciclos de commodities – reforçou a dependência de exportações de baixo valor agregado. Os dependentistas clássicos falariam em “vantagens comparativas coloniais”; os analistas contemporâneos falam em “armadilha da renda média” e “desindustrialização prematura”. A linguagem mudou, o problema é semelhante: quem controla tecnologia e cadeias industriais captura excedentes; quem exporta soja, petróleo e minério, os transfere. A América Latina vive assim uma inserção contraditória na economia global: embora permaneça integrada aos fluxos de comércio e investimento, sua participação relativa no comércio mundial, na produção manufatureira e na geração de valor agregado tem declinado, especialmente em comparação com as economias asiáticas. Essa trajetória reflete não apenas restrições externas, mas uma clivagem estrutural de modelos de desenvolvimento, marcada pela adoção de estratégias neoliberais de liberalização e reprimarização, em contraste com os projetos asiáticos de industrialização tardia, coordenação estatal e ascensão tecnológica.
Neste novo ciclo, a ascensão chinesa emerge como uma janela de inserção externa para os países latino-americanos, por meio de financiamento, infraestrutura, novos mercados, 5G, satélites e mecanismos de clearing internacional. Seja pelo aprofundamento das relações comerciais, seja como estratégia de contrapeso ao protecionismo agressivo praticado pelos EUA, a aproximação sino-latino-americana busca fortalecimento político e estabilidade econômica. Ao mesmo tempo, desperta incertezas quanto ao risco de novas formas de dependência – tecnológica e financeira – que não podem ser romantizadas.
Há, contudo, diferenças evidentes no relacionamento da América Latina com as duas potências globais. Primeiro, a China não condiciona formalmente suas parcerias a alinhamentos políticos, militares ou ideológicos, como historicamente fizeram os EUA na América Latina. A relação é predominantemente pragmática, baseada em comércio, investimento, financiamento e cooperação tecnológica. Segundo, o padrão de dependência é distinto. Com os EUA, a dependência tende a ser tecnológica, financeira e normativa: patentes, sistema financeiro internacional, dólar, sanções, regras comerciais e poder regulatório. Com a China, embora exista o risco de reprimarização, há oferta concreta de investimento em infraestrutura, energia, indústria, ciência e tecnologia, além de disposição para joint ventures, transferência tecnológica e projetos de longo prazo. No atual contexto, a China contribui para diversificar parceiros e reduzir a dependência sistêmica. Ao ampliar a cooperação fora do eixo atlântico, o Brasil tende a diminuir sua vulnerabilidade a choques políticos, sanções e pressões unilaterais, o que fortalece a soberania nacional. Qualquer leitura que trate China e Estados Unidos como polos simétricos de dominação ignora diferenças estruturais centrais e tende a produzir diagnósticos equivocados, incapazes de captar as oportunidades abertas pela reconfiguração da ordem internacional.
Até agora, arranjos como BRICS, Banco de Desenvolvimento do Sul e iniciativas para diversificar sistemas de pagamento internacional têm funcionado como estratégias de fricção. Não rompem a hegemonia, mas criam alternativas institucionais. A literatura dependentista chamaria isso de “autonomia possível” – nunca plena, sempre relativa. A disputa entre China e EUA, no entanto, introduziu um espaço para que o Sul Global exerça política externa ativa. Numa multipolaridade fragmentada, o desafio latino-americano é evitar tanto o alinhamento automático quanto o isolamento que exclui. O pragmatismo crítico, que combina abertura com política industrial, integração regional com intercâmbio tecnológico, e diplomacia com soberania, talvez seja o conceito contemporâneo da velha ambição dependentista.
Contudo, apesar das tensões e assimetrias no sistema global, o Brasil atravessa um momento singular que sugere menos fatalismo e mais oportunidade. A recuperação do crescimento, o fortalecimento das contas públicas, o reequilíbrio institucional e a estabilidade democrática conferem ao país uma credencial que poucos vizinhos possuem. A democracia brasileira se mostrou resiliente a choques internos e externos, oferecendo previsibilidade a investidores, governos e organismos internacionais, demonstrando ser ainda um esteio da estabilidade regional. Esse contexto político e econômico se converte também em ativo diplomático: o prestígio internacional do presidente Lula, reforçado por décadas de inserção multilateral e capital simbólico acumulado, recolocou o Brasil no centro dos debates sobre clima, governança global, segurança alimentar e finanças ambientais (vide COP 30). No século XXI, estabilidade política e legitimidade democrática são tão estratégicas quanto as reservas minerais — e o Brasil possui ambas.
A reconfiguração das relações do Sul Global, em especial o aprofundamento dos laços com a China e com os BRICS, abre uma via para transformar a dependência em cooperação estratégica. A diversificação de parceiros comerciais e financeiros, o uso compartilhado de recursos críticos (de terras raras a energia renovável), a segurança alimentar e o salto tecnológico na fronteira científico-industrial, hoje acelerada pelo ecossistema chinês, compõem uma agenda que pode expandir a autonomia brasileira em bases realistas. Se a teoria da dependência ensinou que o desenvolvimento associado era uma forma limitada de integração, o século XXI oferece a chance de uma associação de qualidade, orientada por ganhos mútuos e interdependência positiva. Para países que dominam alimentos, água, biodiversidade e recursos energéticos, a multipolaridade não é apenas ameaça, pode ser uma oportunidade.
* Lucas Coradini é Sociólogo, Doutor em Ciência Política, Líder do Núcleo de Estudos em Políticas Públicas do IFRS.





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