Por Jiang Shixue
Apesar da distância geográfica, a eleição presidencial no Brasil atrai a atenção de muitos estudiosos e internautas chineses. Eles estão curiosos para saber o que acontecerá, e, especialmente, como avançará a relação entre China e Brasil. O que se segue é basicamente o que eles pensam.
Continuidade da relação
A China tem aderido consistentemente ao princípio da não interferência nos assuntos internos de outros países, e deseja ao Brasil uma eleição geral tranquila e bem-sucedida. O que mais preocupa a China é a continuidade da orientação diplomática do Brasil após a eleição no que diz respeito à cooperação bilateral China-Brasil e à colaboração multilateral (no âmbito de BRICS, G20, ONU, etc.).
Na verdade, independentemente de quem vença a eleição, a China continuará adotando uma estratégia de engajamento pragmático com o Brasil. O crescimento do comércio entre China e Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro demonstra que a China já possui experiência em lidar com governos brasileiros de direita, o que poderá ser relevante caso Flávio vença as eleições. A China espera que mudanças na política doméstica do Brasil não afetem as relações entre os dois países, e espera aprofundar a cooperação bilateral e na governança global, entre outras áreas.
É um fato bem conhecido que as relações econômicas China-Brasil têm uma profunda base estrutural. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, e a cooperação bilateral expandiu-se para além da esfera comercial, abrangendo áreas como infraestrutura, transição energética, economia digital e alinhamento com o Nova Indústria Brasil e o Novo Programa de Aceleração do Crescimento. Alguns brasileiros acreditam que as empresas brasileiras devem dar mais importância à China, evitando afetar as relações bilaterais devido a questões ideológicas.
Mas é claro que, ainda assim, existe um pequeno número de brasileiros alinhados com as narrativas dos Estados Unidos que visam afastar o Brasil e a China. Nesse sentido, há sim a possibilidade de a política externa brasileira se voltar para os Estados Unidos, reduzindo a cooperação com a China em 5G, minerais críticos e outras áreas.
O fator Estados Unidos
Cada vez mais, a política doméstica do Brasil e de outros países latino-americanos é afetada por um considerável fator externo: a intervenção dos Estados Unidos. Indubitavelmente, o Brasil é considerado pelos Estados Unidos como um país-chave nos cálculos em prol do avanço da “Nova Doutrina Monroe” ou do “Corolário Trump” no Hemisfério Ocidental. Como o governo Lula defende a multipolaridade e o aprofundamento da cooperação com o Sul Global, os Estados Unidos estão claramente forçando a mudança da direção política e diplomática do Brasil por meio de pressões políticas e tarifárias, e o apoio a candidatos de direita. O objetivo final dos Estados Unidos passa por remodelar sua hegemonia na América Latina e trazer o Brasil de volta à sua esfera de influência.
Muitos brasileiros também acusaram publicamente os Estados Unidos de tentarem “cercar” o país com iniciativas como o “Escudo das Américas”. Portanto, alguns estudiosos chineses entendem as mudanças políticas na América Latina como parte da pressão estratégica dos Estados Unidos.
O desafio central dos próximos anos não estará associado a um único fator, mas à interação entre a pressão estratégica dos Estados Unidos e a dinâmica dos ciclos políticos na América Latina. Os Estados Unidos estão tratando a América Latina como uma região fundamental e buscando fortemente reduzir a influência chinesa, na medida em que os resultados eleitorais em muitos países latino-americanos têm favorecido a ascensão de governos mais amigáveis a Washington. Essa combinação pode comprimir o espaço da China na cooperação com a América Latina em áreas como tecnologia, minerais críticos, infraestrutura, governança global, etc. Para a China, o maior teste é manter a resiliência das relações econômicas em meio a ventos políticos mutáveis, evitando ser arrastada para uma confrontação regional de soma zero.
Para além dos laços bilaterais
Para além dos laços bilaterais, China e Brasil também desenvolveram cooperação no âmbito multilateral. Por exemplo, tanto a China quanto o Brasil são membros do BRICS, cujo protagonismo internacional tem aumentado. O governo Lula considera a cooperação no âmbito do BRICS como uma de suas ferramentas centrais para se proteger da crescente pressão dos Estados Unidos.
Muitos ao redor do mundo dizem que uma vitória de Flavio poderia tornar o papel do Brasil no BRICS mais passivo ou negativo, enfraquecendo a voz coletiva do grupo no desafio à dominância do dólar e às sanções unilaterais. De fato, se o Brasil se aproximar significativamente de Washington, sua disposição de promover a agenda multipolar dentro do BRICS pode enfraquecer, e a função do BRICS como plataforma de coordenação para o Sul Global pode ser afetada.
Mudança Política na América Latina
A vantagem de Flavio no primeiro turno parece indicar que a direita é bastante forte no Brasil. A China tende a examinar a ascensão da direita latino-americana dentro do marco da competição geopolítica, em vez de vê-la puramente como um fenômeno ideológico.
A direita na América Latina é evidentemente apoiada pelo governo Trump. Os fatos mostram que os Estados Unidos estão promovendo abrangentemente a “Nova Doutrina Monroe” na América Latina através de três instrumentos: subversão militar (como no caso da Venezuela), interferência nas eleições e variados tipos de pressões. Essas ações intervencionistas têm a explícita intenção de apoiar a ascensão da direita na América Latina.
Jiang Shixue é professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau e pesquisador sênior do Instituto Charhar. Professor da Universidade de Estudos Internacionais de Sichuan.




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