Por Isis Paris Maia

GUO, Cunhai; POCHMANN, Márcio (org.). Desenvolvimento Verde China América Latina. Pequim: Editora Chaohua, 2026. 347 p.

A crise ecológica contemporânea e as possibilidades de construção da sustentabilidade constituem o tema central da obra Desenvolvimento Verde China América Latina, organizada por Guo Cunhai e Márcio Pochmann. Publicado em 2026 pela Chaohua Publishing House, o livro reúne pesquisadores chineses e latino americanos em torno de uma agenda que articula desenvolvimento, sustentabilidade, inovação tecnológica, transição energética e cooperação entre países do Sul Global. No caso em tela, a América Latina possui recursos naturais estratégicos, biodiversidade e expressiva capacidade de geração de energia limpa, enquanto a China acumulou capacidades industriais, tecnológicas e financeiras decisivas para a transição verde.

Após a acelerada industrialização e suas profundas contradições ambientais, a China vem promovendo uma transformação de seu modelo de desenvolvimento, cada vez mais ancorado na restauração ambiental e na sustentabilidade. A experiência chinesa é particularmente interessante por procurar superar a falsa dicotomia entre crescimento econômico e preservação ambiental, sem recorrer necessariamente ao decréscimo econômico ou à contenção das forças produtivas como resposta à crise ecológica. Em seu lugar, a categoria de Civilização Ecológica procura incorporar a sustentabilidade ao próprio processo de modernização, mobilizando planejamento estatal, inovação tecnológica, economia circular e reorganização das cadeias produtivas. Nesse paradigma, em lugar de serem concebidos como categorias antagônicas, desenvolvimento e sustentabilidade passam a ser compreendidos como dimensões articuladas, de modo que a expansão das capacidades produtivas, tecnológicas e estatais contribua para criar as condições materiais e institucionais necessárias à sustentabilidade. 

É nesse ponto que a obra organizada por Guo e Pochmann adquire especial relevância e originalidade. Mais do que apresentar a China como fornecedora de tecnologias verdes ou como investidora em projetos ambientais na América Latina, o livro permite compreender a cooperação verde como desdobramento de uma transformação mais ampla no próprio paradigma de desenvolvimento. A experiência chinesa aparece como uma possibilidade histórica de combinação entre prosperidade material, sustentabilidade e justiça social, sem pressupor que os países periféricos devam interromper sua industrialização para responder à crise ambiental. Ao mesmo tempo, a obra não se limita a uma narrativa celebratória. Seus diferentes capítulos permitem identificar desafios relacionados à governança, à transferência tecnológica, ao financiamento, à soberania sobre recursos estratégicos e à construção de uma transição ambientalmente sustentável e socialmente justa.

A diversidade temática dos capítulos constitui outra de suas qualidades. Zhu Xufeng e Li Yuanbo discutem o desenvolvimento sustentável na América Latina e Caribe no marco da Agenda 2030. Douglas de Castro analisa a dimensão ambiental da Iniciativa do Cinturão e Rota e suas novas possibilidades na região. Xing Wei examina a cooperação para o desenvolvimento verde a partir da Iniciativa de Desenvolvimento Global, enquanto Zhang Rui e Li Xiaoyu tratam da governança climática sino latino-americana. Gao Ge e Lin Yue concentram se na energia limpa, tema estratégico diante da transição energética mundial.

O livro amplia ainda mais seu escopo com o capítulo de Marco A. Cabero Z sobre cultura científica, inovação e desenvolvimento sustentável, aproximando ciência, democratização do conhecimento e necessidades concretas da América Latina. José Gabriel Pérez Canencio, Mary Luz Ojeda Solarte e Jorge Enrique Guevara Bejarano analisam a experiência colombiana. Leila da Costa Ferreira, Fabiana Barbi Seleguim e Niklas Weins discutem a governança multinível das mudanças climáticas no Brasil. João Cumarú aborda o papel da China na transição energética brasileira. Wang Ning, Zhang Hongfu e Guo Peiyuan tratam das possibilidades de cooperação em finanças verdes, enquanto Wei Mingxin examina a dimensão comunicacional da transição verde e da cooperação sino-brasileira.

Essa contribuição coloca em relevo, de maneira particularmente clara, a complementaridade da agenda ambiental e o potencial de cooperação entre América Latina e China. No nosso caso específico, deve-se sublinhar que o Brasil reúne biodiversidade, recursos minerais estratégicos, vastos territórios florestais e uma matriz energética com importante participação de fontes renováveis. E a China, por sua vez, dispõe de capacidades industriais, financeiras e tecnológicas em setores como energia solar, eólica, veículos elétricos, baterias e equipamentos associados à transição energética. O livro registra a presença crescente de empresas chinesas no setor energético brasileiro, com investimentos concentrados principalmente em fontes renováveis. Essa complementaridade converge ainda com os objetivos brasileiros de reindustrialização presentes na Nova Indústria Brasil, particularmente em sua Missão 5, voltada à bioeconomia, à descarbonização e à transição e segurança energética para promover um desenvolvimento sustentável.

Por fim, Desenvolvimento Verde China América Latina permite pensar a cooperação ambiental em diferentes arenas bilaterais e multilaterais. O Fórum China CELAC, a Iniciativa do Cinturão e Rota e sua vertente verde, assim como a Iniciativa de Desenvolvimento Global, oferecem plataformas institucionais para ampliar as relações Sul Sul em ciência, tecnologia, energia, financiamento e governança ambiental. A própria obra demonstra que essa cooperação passou progressivamente de formulações gerais para mecanismos e iniciativas concretas.

Seu significado geopolítico é decisivo em um contexto internacional marcado por desigualdades históricas, crises ambientais, financeiras e energéticas e crescente contestação da ordem construída sob predominância dos Estados Unidos e de seus aliados. A aproximação entre China e América Latina pode contribuir para ampliar a autonomia do Sul Global por meio da construção de capacidades próprias de desenvolvimento, tecnologia e financiamento. Não se trata, portanto, de substituir uma dependência por outra, mas de ampliar as possibilidades de cooperação e de escolha. Nesse sentido, a obra organizada por Guo e Pochmann é particularmente oportuna ao mostrar que a transição ecológica pode constituir não apenas uma resposta à crise ambiental, mas também uma oportunidade histórica para fortalecer a cooperação Sul-Sul e construir alternativas às disfuncionalidades do sistema internacional contemporâneo.

Isis Paris Maia – Historiadora, Mestre e Doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É Professora Colaboradora do GEChina-UNB. Diretora de Políticas Públicas do Cebrach.

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