Em um contexto marcado pela transição para uma ordem internacional multipolar, a América Latina se vê diante de um desafio histórico: permanecer presa às estruturas de dependência que moldaram seu desenvolvimento ou construir uma estratégia própria de inserção internacional baseada na autonomia, na inovação e na capacidade de ação. É a partir dessa reflexão que Marcus Vinicius de Freitas, professor visitante da Universidade de Relações Exteriores da China, desenvolve a conferência “América Latina em uma Encruzilhada: da Dependência à Capacidade de Ação em um Mundo Multipolar e uma Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade”.

Ao revisitar a trajetória histórica da região e suas relações com as grandes potências, o autor questiona modelos de desenvolvimento importados e argumenta que nenhuma nação alcançou prosperidade duradoura apenas reproduzindo fórmulas externas. Nesse sentido, a experiência chinesa é apresentada não como um modelo a ser copiado, mas como uma demonstração da importância do planejamento estratégico, da construção de capacidades nacionais e da formulação de projetos de longo prazo.

O discurso também examina as oportunidades abertas pela crescente aproximação entre China e América Latina, destacando a complementaridade econômica entre ambas as regiões e a necessidade de transformar recursos naturais em conhecimento, tecnologia e valor agregado. Mais do que uma escolha entre diferentes polos de poder, a multipolaridade é entendida como uma oportunidade para ampliar margens de autonomia e diversificar parcerias.

Ao final, o autor sustenta que o futuro da América Latina dependerá menos das disputas entre as grandes potências e mais da capacidade da própria região de definir seus objetivos estratégicos. Em vez de ocupar uma posição periférica na construção da nova ordem internacional, a América Latina é chamada a assumir um papel ativo na definição dos rumos do século XXI.

Leia abaixo o discurso na íntegra.

América Latina em uma Encruzilhada: Da Dependência à Capacidade de Ação em um Mundo Multipolar e uma Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade

Marcus Vinicius de Freitas
Professor Visitante da Universidade de Relações Exteriores da China

Distintos líderes, excelências, queridos amigos,

Permitam-me começar não pela economia, mas por uma pergunta sobre a história.

O que teria acontecido se o primeiro grande encontro entre a China e a América Latina tivesse ocorrido há cinco séculos?

Quando o almirante Zheng He navegou pelo Oceano Índico no início do século XV, comandando a frota mais sofisticada de sua época, a China possuía os meios técnicos para continuar sua travessia pelo Pacífico. Se a corte Ming, sob o imperador Xuande, tivesse decidido manter as expedições marítimas iniciadas durante o reinado do imperador Yongle, em vez de interrompê-las, talvez a história tivesse seguido um rumo muito diferente.

As Américas poderiam ter sido alcançadas não pelas caravelas europeias, mas pelos navios do tesouro chineses.

Mas a história não é determinada apenas pelas capacidades. Ela é determinada pelas decisões.

A China escolheu a introspecção. A Europa escolheu a expansão. A América Latina passou a integrar um mundo concebido por outros.

Hoje, porém, a história nos oferece uma segunda oportunidade.

Quinhentos anos depois, a China retorna à América Latina não com soldados, mas com investimentos; não com conquista, mas com conectividade; não em busca de colônias, mas de parcerias.

Somente isso já deveria nos levar a reconsiderar uma premissa fundamental.

A geografia é permanente.

O destino é político.

E talvez nenhuma região ilustre melhor essa realidade do que a América Latina.

Durante muito tempo, nossa região foi descrita pela linguagem da dependência: dependência de commodities, de capital estrangeiro, de tecnologias importadas e, talvez o mais perigoso, de ideias importadas.

No entanto, nada disso define verdadeiramente quem somos.

A América Latina representa aproximadamente um quarto da superfície terrestre do planeta. Abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo, uma biodiversidade incomparável, enorme capacidade agrícola e muitos dos minerais estratégicos que sustentarão a transição energética e a revolução digital.

A questão, portanto, não é se a América Latina possui recursos.

A questão é se a América Latina possui ambição.

Durante décadas aceitamos a ideia de que o desenvolvimento poderia ser prescrito de fora.

O Consenso de Washington tornou-se, para muitos governos, um roteiro para a modernização. Disciplina fiscal, privatização e liberalização foram apresentadas quase como verdades universais.

Algumas dessas reformas produziram resultados positivos.

Mas também precisamos reconhecer uma realidade incômoda: a promessa geral de convergência nunca se concretizou plenamente.

O crescimento permaneceu frágil.

A industrialização perdeu dinamismo.

A desigualdade persistiu.

Talvez a maior lição seja que o desenvolvimento não pode ser importado.

Nenhuma nação alcançou a prosperidade simplesmente copiando outra.

Os Estados Unidos não se tornaram os Estados Unidos imitando a Grã-Bretanha.

O Japão não se tornou o Japão imitando os Estados Unidos.

A Coreia do Sul não se tornou a Coreia do Sul imitando o Japão.

E a China certamente não se tornou a China copiando ninguém.

Todas as nações bem-sucedidas tomaram ideias emprestadas, mas construíram seus próprios modelos.

O verdadeiro início da soberania acontece quando um país deixa de importar fórmulas e começa a criar soluções adaptadas à sua própria história e às suas circunstâncias.

Por isso a América Latina deveria olhar para a China com curiosidade intelectual, e não com preconceitos ideológicos.

Não porque a China ofereça um modelo universal.

Ela não oferece.

Mas porque sua experiência demonstra a importância do planejamento de longo prazo, da infraestrutura, da continuidade institucional, da experimentação e da paciência estratégica.

Seu milagre de desenvolvimento não foi improvisado.

Foi construído ao longo de gerações.

Talvez essa seja a maior lição que a China pode nos oferecer.

Não um modelo a ser copiado.

Mas a prova de que a transformação nacional exige uma visão capaz de transcender os ciclos eleitorais.

E talvez tenhamos formulado a pergunta errada.

Durante anos, analistas debateram qual deveria ser a posição da América Latina diante da China.

Eu proporia uma pergunta diferente.

Qual é o projeto da América Latina para si mesma?

Porque somente aqueles que sabem para onde querem ir podem escolher os companheiros adequados para a jornada.

É nesse contexto que a relação entre China e América Latina se torna particularmente fascinante.

Os chineses têm uma expressão:

“A distância cria beleza.”

À primeira vista, parece apenas uma frase poética.

Mas, sob uma perspectiva geopolítica, pode ser profundamente estratégica.

Nossa distância nos poupou de muitos dos conflitos que caracterizam as relações entre potências vizinhas.

Não temos disputas territoriais.

Não compartilhamos guerras históricas.

Não competimos por arquiteturas de segurança.

Não existe antagonismo civilizacional entre nós.

Ao contrário, possuímos forças complementares.

A China busca segurança alimentar, segurança energética, cadeias de suprimentos diversificadas e parceiros confiáveis.

A América Latina necessita de investimentos, tecnologia, modernização industrial e infraestrutura.

Isso cria as condições não para a dependência, mas para a sinergia.

E sinergia é algo muito diferente de subordinação.

Nosso objetivo não pode ser substituir uma dependência por outra.

A solução não consiste em trocar Washington por Pequim.

Nem Bruxelas por qualquer outra capital.

Autonomia estratégica significa relacionar-se com todos sem depender de ninguém.

Essa é a essência da capacidade de ação.

A multipolaridade não deve ser entendida como uma competição entre grandes potências.

Ela deve ser entendida como a multiplicação de oportunidades.

Permite que países como os nossos diversifiquem riscos, ampliem alianças e negociem com confiança, e não por necessidade.

A capacidade de ação começa quando existem opções.

Mas também exige imaginação.

Nossa maior exportação no século XXI não deveria ser a soja.

Nem o cobre.

Nem o lítio.

Deveria ser a inteligência.

O verdadeiro valor do lítio não está sob a terra, mas nas baterias, nos softwares e nos ecossistemas de inovação que ele possibilita.

O verdadeiro valor da biodiversidade não está em preservar as florestas como museus, mas em transformar essa riqueza biológica em biotecnologia, produtos farmacêuticos e descobertas científicas.

O futuro não pertence àqueles que simplesmente possuem recursos.

Pertence àqueles que geram conhecimento.

O presidente Xi Jinping fala frequentemente sobre a construção de uma Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade.

Independentemente de ser interpretado sob uma perspectiva política ou filosófica, esse conceito reflete uma realidade inegável.

A mudança climática não reconhece fronteiras.

As pandemias não carregam passaporte.

A inteligência artificial transformará todas as economias.

As crises financeiras se propagam mais rapidamente do que a diplomacia.

Nossos destinos tornaram-se interdependentes.

E talvez a maior contribuição da América Latina para essa nova ordem seja precisamente sua tradição de diálogo.

Sempre preferimos a diplomacia à coerção.

A negociação ao confronto.

A construção de pontes à formação de blocos.

Talvez isso não seja uma fraqueza.

Talvez seja nossa maior vantagem comparativa.

Senhoras e senhores,

A história raramente concede segundas oportunidades.

Há quinhentos anos, quando os oceanos conectavam civilizações, a América Latina foi descoberta por outros.

Hoje, pela primeira vez em gerações, temos a oportunidade de nos descobrir.

Não rejeitando o mundo.

Não escolhendo entre Oriente e Ocidente.

Mas compreendendo que nosso futuro não pertence nem a Washington nem a Pequim.

Pertence à América Latina.

O mundo multipolar não está apenas redistribuindo poder.

Está redistribuindo responsabilidade.

E talvez o maior desafio que enfrentamos não seja convencer os outros de que a América Latina importa.

Mas convencer a nós mesmos.

Porque o futuro não será escrito por aqueles que esperam permissão.

Será escrito por aqueles que se atrevem a imaginá-lo, possuem a sabedoria para adaptá-lo e a disciplina para construí-lo.

Chegou o momento de deixar para trás a dependência.

Chegou o momento de abraçar a capacidade de ação.

E talvez, pela primeira vez em nossa história, tenha chegado o momento de a América Latina não apenas participar da construção do mundo, mas contribuir para definir seu rumo.

Muito obrigado.

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