Por Xu Yanran

A China é atualmente a principal produtora, investidora e exportadora mundial de tecnologias de energia renovável. Há mais de duas décadas, o país transformou o status da energia renovável, que deixou de ser apenas uma ideia ecológica para se tornar um dos pilares centrais de seu sucesso industrial de alta tecnologia e de sua influência internacional. Ao mesmo tempo, a América Latina dispõe de muitos dos principais recursos renováveis do mundo (irradiação solar notável, vastos corredores eólicos, potencial hidrelétrico abundante e reservas estratégicas de minerais essenciais), o que a torna uma parceira natural na agenda global de desenvolvimento verde da China.

A participação da China no setor de energia renovável da América Latina não é apenas um caso de expansão comercial. Ela está ligada à formação de um tipo radicalmente novo de cooperação Sul-Sul que utiliza a transferência de tecnologia, os fundos de infraestrutura, a capacidade produtiva e o planejamento ambiental como ferramentas-chave. Atualmente, as empresas chinesas ocupam um lugar de destaque entre os investidores em sistemas de geração de energia, produção de baterias, linhas de transmissão e mobilidade elétrica em toda a região.

Atualmente, os países latino-americanos estão cada vez mais considerando o investimento chinês, seja em capital, seja em tecnologia, como um caminho importante para atender às suas próprias necessidades de transição energética. Com as energias renováveis se tornando agora um setor estratégico, e não apenas ecológico, é provável que a cooperação entre a China e a América Latina passe de projetos básicos de infraestrutura para a produção local e de redes inteligentes para soluções de armazenamento e formas digitais de governança energética.

O modelo de desenvolvimento de energia renovável da China

O desenvolvimento da energia renovável na China ocorreu em três fases bem definidas. A primeira fase começou com a aprovação da Lei de Energia Renovável em 2005 e concentrou-se principalmente na criação de capacidade de produção interna por meio de medidas industriais favoráveis, tarifas de compensação e grandes projetos de demonstração. Naquela época, a China buscava reduzir sua dependência de tecnologia estrangeira e fortalecer suas próprias indústrias, estabelecendo a capacidade de fabricar células solares, turbinas eólicas e equipamentos auxiliares.

A segunda fase (2013–2020) testemunhou a ascensão da China como principal fabricante mundial de energia renovável. Investimentos maciços em energia solar fotovoltaica (FV), energia eólica, sistemas de transmissão de ultra-alta tensão, redes inteligentes e tecnologia de baterias permitiram que as empresas chinesas alcançassem notáveis economias de escala. Entre as empresas que se beneficiaram e lideraram essa onda estavam a LONGi, a Trina Solar, a JinkoSolar, a Goldwind, a CATL e a BYD.

A terceira fase (2021–presente) é caracterizada pela integração dos objetivos de neutralidade de carbono com prioridades mais amplas de desenvolvimento nacional. O compromisso de alcançar a neutralidade de carbono até 2060 posiciona agora a energia renovável como parte essencial da modernização econômica, da inovação tecnológica e da segurança nacional. As prioridades políticas atuais enfatizam cada vez mais a gestão de energia elétrica com o uso de IA, as tecnologias de armazenamento de energia, o desenvolvimento do hidrogênio, os mercados digitais de energia elétrica e a construção de sistemas energéticos resilientes, capazes de sustentar a economia digital em expansão na China.

 O envolvimento da China no setor de energia renovável da América Latina

O envolvimento da China no setor de energia renovável da América Latina cresceu significativamente na última década, evoluindo do financiamento de infraestrutura básica para uma cooperação industrial abrangente. O país realizou investimentos substanciais em parques solares, energia eólica e hidrelétrica, redes de transmissão de eletricidade, fabricação de baterias e produção de veículos elétricos em toda a região.

Grandes empresas estatais, incluindo State Grid, China Three Gorges, PowerChina e China Energy Engineering, participaram de projetos de infraestrutura em grande escala, enquanto empresas privadas como LONGi, Trina Solar, JinkoSolar, Goldwind e BYD se tornaram fornecedoras líderes de tecnologias e equipamentos renováveis.

No que diz respeito ao investimento financeiro, a participação chinesa vem incorporando cada vez mais a transferência de tecnologia e a modernização industrial. Muitos dos projetos atuais de energia renovável estão sendo planejados em conjunto com serviços de engenharia, treinamento técnico, sistemas de monitoramento digital, tecnologias de gestão de redes inteligentes e iniciativas de pesquisa colaborativa.

Nesse cenário, as empresas chinesas estão gradualmente deixando de se limitar à mera exportação de maquinário para se voltarem para a fabricação local e a integração de fornecedores regionais em acordos de produção internacionais. Essa mudança faz parte de uma evolução mais ampla na política de investimento estrangeiro da China, que agora privilegia a cooperação industrial de longo prazo em detrimento de projetos de curto prazo.

Perspectivas futuras

Para a próxima década, espera-se que a cooperação entre a China e a América Latina no âmbito das energias renováveis se desenvolva no sentido de uma integração tecnológica e industrial mais estreita:

  • Sistemas de armazenamento de energia: antes um conceito de nicho, o armazenamento ganhará muito mais importância com a maior penetração das energias renováveis em toda a região, oferecendo espaço substancial para o crescimento das empresas chinesas de baterias e das tecnologias relacionadas.
  • IA e ferramentas digitais: a gestão digital do uso de energia ajudará a tornar as redes elétricas mais eficientes, integrar fontes renováveis de pequena escala ao abastecimento principal e melhorar o desempenho do mercado de eletricidade.
  • Desenvolvimento do hidrogênio: isso representa outra área altamente promissora para esforços conjuntos. Entre os países com recursos renováveis notáveis, o Chile e o Brasil estão particularmente bem posicionados para produzir quantidades substanciais de hidrogênio verde para os mercados interno e de exportação.
  • Localização das cadeias de suprimentos: a colaboração futura dependerá menos das exportações diretas da China e mais da utilização de instalações de fabricação na América Latina. Isso ajudará a desenvolver a indústria local, reduzir os custos de transporte e aumentar a resiliência das cadeias de suprimentos regionais.

Conclusão

A participação da China no setor de energia renovável da América Latina figura atualmente entre os principais fenômenos da economia política da transição energética global. Para a América Latina, a cooperação com a China oferece oportunidades únicas para descarbonizar, modernizar a infraestrutura, diversificar as indústrias locais e integrar-se à cadeia de valor global de energia limpa.

No entanto, transformar essas oportunidades em realidade exigirá uma governança interna mais sólida, transparência regulatória, responsabilidade ambiental e uma rede diversificada de conexões internacionais. Olhando para o futuro, a colaboração em energias renováveis está destinada a se tornar um dos principais pilares das relações sino-latino-americanas e uma característica marcante da política internacional da era global de baixo carbono.

Xu Yanran é Professora Associada da Universidade Renmin da China, onde também é Diretora do Programa de Dupla Graduação em Governança Global e Assuntos Internacionais. Doutora em Relações Internacionais pela Universidade de Miami (EUA), sua pesquisa centra-se nas relações China-América Latina e na dinâmica triangular China-EUA-América Latina. É autora de China’s Strategic Partnerships in Latin America (Lexington Books, 2017).

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