Por Diego Pautasso [1] e Isis Paris Maia [2]

A nova onda de calor que atinge a Europa volta a produzir números alarmantes de mortes. Mais do que um evento meteorológico extremo, porém, ela revela processos estruturais que extrapolam a dimensão climática. A tragédia evidencia sinais de fragilização das capacidades estatais de planejamento e provisão de bens públicos para prevenir e responder a eventos extremos, expõe a questão etnocêntrica que permeia sua cobertura midiática, contrapõe distintos paradigmas de desenvolvimento e adaptação às mudanças climáticas, reafirma a centralidade da infraestrutura como expressão de modernização e proteção social e, em última instância, oferece indícios da transição sistêmica em curso na ordem internacional. À luz desse cenário, cabe refletir sobre a experiência chinesa no enfrentamento desses desafios, em especial a partir do paradigma da chamada Civilização Ecológica.

Ondas de calor e erosão das capacidades estatais europeias

A cada novo verão, a Europa tem estampado nas manchetes a sua tragédia térmica.  Segundo publicadas na Nature Medicine[3], entre 2022 e 2024, mais de 181 mil mortes estiveram associadas ao calor extremo no continente. Ondas sucessivas de calor  quebram recordes de temperatura e, junto com elas, ceifam vidas de forma sistematicamente subnotificada, pois raramente consta como causa de morte nos atestados de óbito, ocultando-se por trás de diagnósticos cardiovasculares e respiratórios agudos[4].

Para além das elevadas temperaturas, o que chama a atenção é a incapacidade de uma resposta política compatível com esse desafio. A União Europeia destina 680 bilhões de euros do orçamento 2021-2027 para medidas relacionadas ao clima, mas apenas uma fração ínfima desse montante chega à adaptação térmica ao superaquecimento urbano[5], dedicando “substancialmente mais atenção e capital político aos elementos de descarbonização do Pacto Verde Europeu do que ao seu pilar de adaptação”, como documenta o relatório de 2024 da Agência Europeia do Ambiente (EEA)[6]. Menos da metade dos 38 Estados-membros da EEA monitora mortes relacionadas ao calor em tempo quase real; apenas 20 países acompanham os impactos do calor na saúde de forma sistemática[7].

A vulnerabilidade é demograficamente concentrada, uma vez que pessoas com 65 anos ou mais representam 85% das mortes por calor na Europa[8]. Considerando que se trata de um continente em franco processo de envelhecimento populacional, o cenário é de ampliação do risco, mantendo-se a disfuncionalidade[9]. Enquanto a Europa não se adapta, seus cidadãos mais ricos se isolam e os demais são deixados à mercê do calor. Aliás, é inacreditável que apenas cerca de 20% dos lares europeus possuam algum sistema de refrigeração[10].

Nesse contexto, a Europa, que não raro se coloca como paradigma civilizacional, assiste impassível à morte de seus cidadãos mais vulneráveis. Sob o manto de um alegado vanguardismo ambiental que confunde ascetismo com virtude, a recusa em investir em climatização para o verão revela-se uma decisão política. Persiste-se com edificações antiquadas, sem adaptação térmica para o calor, e sequer políticas para adequar a rotina a essas situações de extremos térmicos.

É inaceitável que nações com PIB per capita entre os mais elevados do planeta, com séculos de acumulação de capital, com infraestruturas que supostamente deveriam ser modelares, registrem, em poucos dias, mais de 1.400 mortes em razão das altas temperaturas, lembrando que, em 2025, chegou a mais de 24 mil mortes, segundo o Imperial College London[11]. Apesar do extremo climático, esse fato tem sido recorrente nos últimos anos, o que revela incompetência governamental para adequar uma infraestrutura envelhecida a uma realidade climática que já se instalou.

A China e a governança ambiental: entre ações adaptativas e estruturais

A China, por sua vez, tem demonstrado que é possível e necessária uma governança que combine ações adaptativas, voltadas a desafios urgentes, e ações estruturais, direcionadas a transformações de longo prazo. A chamada Civilização Ecológica, incorporada à doutrina do Partido em 2012 e elevada a estratégia de desenvolvimento nacional, é a chave conceitual desse paradigma. Trata-se de uma governança que integra metas ambientais vinculantes aos Planos Quinquenais, com políticas públicas ambientais que se desdobram para todos os âmbitos da sociedade e do desenvolvimento.

São inúmeras as medidas adaptativas urgentes para enfrentar os extremos climáticos. O país construiu mais de 10.000 novas estações de monitoramento e alerta precoce apenas em 2024, expandindo sua capacidade de previsão de eventos extremos[12]. Na bacia do rio Lancang, gerenciada pelo China Huaneng Group, foram construídas doze usinas hidrelétricas em cascata, equipadas com monitoramento digital e despacho centralizado em toda a bacia, reduzindo o pico natural de enchente em aproximadamente 70%[13]. Reservatórios estão sendo operacionalizados para manter capacidade de abastecimento de água e energia durante secas prolongadas, enquanto um sistema integrado hidro-eólico-solar está sendo desenvolvido para responder a eventos climáticos extremos.

Em termos de adaptação costeira, projetos como o dique de maré de Liudao e o dique leste da costa de Ningjin são implementados para proteger essas áreas contra a elevação do nível do mar e ressacas. Reservatórios são reforçados, sistemas de drenagem urbana ampliados, e simulações de emergência realizadas regularmente para preparar equipes de resgate e a população. Em Shenzhen, o Parque da Baía de Shenzhen, com 13 quilômetros de costa, mantém a infraestrutura costeira livre de grandes construções, com manguezais e vegetação de zonas úmidas protegendo mais de 12 milhões de habitantes contra tempestades e avanço do mar.

A lógica chinesa tem combinado, por isso, adaptação e mitigação para enfrentar os extremos climáticos. A Estratégia Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas 2035, estabelecida em 2022, é o plano mais abrangente do país até o momento, com metas e cronogramas cobrindo resiliência urbana, restauração de ecossistemas, sistemas de alerta precoce e avaliação de riscos[14]. Já a Lei de Proteção da Bacia do Rio Yangtzé (2020) e projetos de reabilitação ecológica fluvial, como o realizado em Pingxiang, Jiangxi, onde zonas úmidas ribeirinhas restauradas e encostas verdes suaves reduzem riscos de enchentes, criam habitats para a biodiversidade e são usufruídos pela comunidade, exemplificam a integração entre proteção ambiental e adaptação climática.

O caso do projeto de Cidades Esponja é uma síntese entre adaptação urgente e transformação estrutural. Iniciado em 2014 e expandido para 30 cidades-piloto em 2015, representa uma revolução no planejamento urbano. Em vez de se restringir ao modelo tradicional de “drenagem rápida” baseado em concreto, tubulações e represamento, as cidades chinesas são projetadas para absorver, reter, purificar e reutilizar a água da chuva, como medidas complementares. É a integração sistêmica de infraestrutura cinza e verde por meio de pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes, zonas úmidas artificiais, parques de retenção e corredores ecológicos. Na mesma direção de revitalização ambiental dos espaços urbanos, o projeto Cidade Floresta vem redefinindo a paisagem urbana do país, convertendo antigas “selvas de pedra” com precária qualidade do ar em cidades completamente arborizadas.

Cabe sublinhar, para quem não tem familiaridade, que a China é um país historicamente moldado por situações ambientais extremas, incluindo variações térmicas de magnitude quase inimaginável. Em Harbin, no nordeste, o inverno registra temperaturas que chegam a – 42,6°C, e o verão a 37,8°C. Em Xinjiang, as temperaturas máximas chegam próximas a 50°C e as mínimas a – 52,3°C, resultando num gradiente térmico histórico de cerca de 100 graus Celsius dentro de uma mesma região administrativa[15].

Ademais, a China abriga, em seu território, praticamente todos os climas do planeta e enfrenta, simultaneamente, inundações devastadoras no sul, secas extremas no noroeste, tufões no litoral e ondas de calor no interior. Já a Europa, com um consumo de energia per capita muito superior ao chinês, com desafios climáticos relativamente menores, com recursos incomparavelmente maiores, não consegue enfrentar uma onda de calor sem deixar milhares de mortos em seu rastro. Para ilustrar: a China, em 2023, alcançou mais de 145 unidades de ar-condicionado por 100 lares, com políticas de substituição que aceleram a eficiência energética das unidades, enquanto a Europa revela completa inoperância para adequar as residências às ondas de calor..

O etnocentrismo e a transição de poder

Em nosso livro Quem tem medo da China?, a escolha de dedicar a primeira parte à questão do etnocentrismo não foi fortuita. O tema das relações internacionais, a dinâmica imperialista e as relações centro-periferia são atravessados pela questão do etnocentrismo e pela consequente produção de narrativas. A maneira como as mortes na Europa decorrentes da onda de calor têm sido tratadas corrobora exatamente essa argumentação.

Isto é, a grande mídia tem preferido tratar as milhares de mortes em Paris, Londres ou Madri como um efeito das “ondas de calor sem precedentes”, relacionadas com as mudanças climáticas. Pouco se diz sobre ineficiência governamental e negligência do poder público. Não restam dúvidas, porém, de que a abordagem seria outra caso esse mesmo cenário de milhares de mortes ocorresse em países do Sul Global. A narrativa se inverteria instantaneamente, buscando chaves explicativas em conceitos como “corrupção”, “ineficiência governamental”, “estados falidos” e até “genocídio”. Durante o terremoto ocorrido na Venezuela recentemente, tais explicações foram recorrentes para explicar as dificuldades nos resgates das vítimas.

Durante a pandemia de COVID-19, enquanto os números chineses eram sistematicamente questionados, sob alegação de serem ou “forjados” ou decorrentes da imposição “autoritária” do lockdown, os números assustadores dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Itália não eram objeto de críticas duras. Muito pouco se falou sobre a evidente ineficiência estatal ou sobre as deficiências dos sistemas de saúde. Ninguém perguntou por que os Estados Unidos, uma grande potência com elevados gastos per capita em saúde, acumularam mais de um milhão de mortes. Paralelamente, a vacina chinesa era colocada sob suspeição, tratamento absolutamente distinto daquele dado às similares ocidentais.

Para além da dimensão simbólica e narrativa, as ondas de calor europeias e a incapacidade de resposta também revelam um sinal dos tempos. A Europa, que por séculos se posicionou como vanguarda civilizacional, dá sinais claros e recorrentes de suas dificuldades. Não se trata apenas de  modernização da infraestrutura ou adaptação das cidades às novas realidades climáticas, mas da erosão de um modelo de desenvolvimento.

A China, pelo contrário, demonstra a renovação do seu paradigma de modernização. Sob a chave conceitual da Civilização Ecológica, o país tem combinado desenvolvimento com sustentabilidade. E as transformações infraestruturais chinesas talvez sejam um dos indicadores mais claros dessa trajetória chinesa, como ilustram muito bem as ferrovias de alta velocidade, o planejamento das grandes cidades, a transição ecológica em diversas áreas, do tratamento de resíduos sólidos aos sistemas energéticos.

A Europa, por seu turno, como bem destacou Todd, em La derrota de Occidente[16], dá mostras recorrentes dos seus descaminhos. À crise da democracia liberal e à crescente disfunção da sua representação política, somam-se a ampliação das desigualdades sociais, combinada à erosão dos sistemas de valores e crenças compartilhadas. Esse esvaziamento normativo é acompanhado pelo recrudescimento do individualismo e atomização social, insegurança existencial e perda de horizontes coletivos. Não por acaso, estamos exatamente diante de uma demonstração da incapacidade de definição dos horizontes políticos diante dos desafios.

Considerações finais

Estamos diante de uma transição sistêmica multidimensional, na qual se entrelaçam transformações geopolíticas, tecnológicas, demográficas, ambientais e civilizacionais. As ondas de calor que hoje assolam a Europa não constituem um episódio isolado, tampouco podem ser compreendidas apenas como consequência das mudanças climáticas. Elas expõem limites de um modelo de desenvolvimento, revelam a erosão de capacidades estatais essenciais e evidenciam a dificuldade de converter recursos econômicos em proteção efetiva da população diante de riscos cada vez mais recorrentes. Aliás, a Europa, outrora referência na construção do Estado de Bem Estar Social e na provisão universal de bens e serviços públicos, expõe fragilidades para responder aos desafios contemporâneos.

A experiência chinesa oferece um contraponto relevante de articulação entre planejamento de longo prazo, fortalecimento das capacidades estatais, investimento maciço em infraestrutura, inovação tecnológica e incorporação da sustentabilidade ao projeto nacional para enfrentar os desafios climáticos. Sob o paradigma da Civilização Ecológica, desenvolvimento econômico, adaptação climática e proteção ambiental deixam de ser objetivos concorrentes para integrar uma mesma estratégia de modernização.

A transição sistêmica em curso, portanto, não diz respeito apenas à redistribuição do poder internacional. Ela envolve também a disputa entre diferentes concepções de desenvolvimento, de ação estatal e de produção do bem-estar coletivo. Trata-se de refletir sobre quais modelos de desenvolvimento e quais formas de organização do Estado estarão mais aptos a garantir segurança, resiliência e qualidade de vida em um século marcado pela intensificação dos riscos ambientais.


[1] Doutor (2010) e Mestre (2006) em Ciência Política e Graduado (2003) em Geografia pela UFRGS. É professor Titular da Rede Federal, co-criador do projeto de difusão científica @fiosdechina (Instagram) e diretor de pesquisas do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (CEBRACh). Autor dos livros Imperialismo; A China Atual No Legado De Mao Tsé-tung; e China e Rússia no Pós-Guerra Fria, bem como co-autor de Quem tem medo da china?; A China e a Nova Rota da Seda; Teoria das Relações Internacionais; e Domenico Losurdo: crítico do nosso tempo. E-mail: dgpautasso@gmail.com

[2] Doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com conclusão prevista para 2027, e mestre em Políticas Públicas pela mesma instituição (2023). Graduada em História, é co-criadora do projeto de divulgação científica @fiosdechina e diretora de Políticas Públicas do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (CEBRACh). Atua como professora colaboradora da Pós-Graduação em China Contemporânea da PUC Minas e do Grupo de Estudos sobre a China da Universidade de Brasília (GECHINA-UnB). É coautora do livro Quem tem medo da China? A construção da ameaça chinesa. E-mail: isisparismaia@gmail.com

[3] Vicedo-Cabrera, A.M. et al. (2025). “Heat-related mortality in Europe during the summer of 2024.” *Nature Medicine*. DOI: 10.1038/s41591-025-03674-3.

[4] Idem. O estudo utiliza modelo de mortalidade excessiva que compara observados com esperados, corrigindo pela subnotificação direta do calor como causa de morte nos registros oficiais.

[5] Comissão Europeia (2021). *A European Green Deal*.

[6] Agência Europeia do Ambiente (2024). *Climate change adaptation in the EU: taking stock and looking ahead*. Relatório nº 22/2024. Copenhague: EEA.

[7] Idem.

[8] Vicedo-Cabrera et al. (2025), op. cit.

[9]  United Nations, Department of Economic and Social Affairs (2024). *World Population Prospects 2024*.

[10]  Dados compilados de Eurostat (2024), IEA (2023) e relatórios nacionais de eficiência energética.

[11] Gasparrini, A. et al. (2025). “Temporal trends in heat-related mortality burden in Europe.” *Nature Medicine*. DOI: 10.1038/s41591-025-03675-2.

[12] Dados oficiais do Ministério de Recursos Hídricos da China (2024).

[13] China Huaneng Group (2024). Relatório de gestão da bacia do rio Lancang.

[14] Conselho de Estado da China (2022). *Estratégia Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas 2035*.

[15] National Meteorological Center of China (2024). Dados de tempede raturas extremas em Xinjiang e Harbin.

[16] TODD, E. La derrota de Occidente. Madrid: Ediciones Akal, 2024.

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