Por Nilson Weisheimer

    A ascensão da República Popular da China no cenário global do século XXI não pode ser compreendida sem uma imersão profunda na sua orientação ideológica, cujo epicentro reside no Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era. Esta formulação, longe de ser uma continuidade dogmática do marxismo-leninismo, é o desenvolvimento do socialismo cientifico de Marx, Engels, Lênin, Mao e Xiaoping para o tempo presente. Ele responde nos campos teóricos e práticos as grandes contradições da humanidade nesse século e representa uma contribuição teórica original ao materialismo histórico, elevando-o à condição de Marxismo renovado do Século XXI [1], tal como foi a teoria leninista no inicio do século passado. É a partir desta lente que se torna possível decifrar o real papel e significado da juventude chinesa, não como um objeto de políticas públicas, mas como o sujeito histórico consciente e a vanguarda de um processo de revitalização nacional que se revela cientificamente orientado.

    O presente ensaio propõe-se a refletir a complexa dialética que subjaz à mobilização da juventude chinesa, interpretando suas ações e reações como elementos constitutivos da práxis socialista com características chinesas. A centralidade da juventude é aqui exaltada como a força motriz que impulsiona as Forças Produtivas de Nova Qualidade (NQPF), conceito seminal de Xi Jinping que redefine o desenvolvimento econômico como intrinsecamente ligado à inovação tecnológica radical e à sustentabilidade social e ambiental. [2]. A adesão massiva ao Partido Comunista da China (PCCh), a ocupação de postos de responsabilidade em setores estratégicos e o protagonismo na inovação tecnológica são analisados como manifestações concretas de um compromisso que transcende o institucionalismo e pragmatismo, configurando-se como uma escolha histórica consciente pela via socialista.

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    Contudo, a análise não se furtará a indicar as contradições inerentes a este processo de modernização acelerada. Fenômenos como o rigor do Gaokao e a emergência do tangping (deitar-se) serão abordados não como falhas do socialismo com características chinesas, mas como contradições dialéticas do desenvolvimento que o próprio PCCh está cientificamente equipado para diagnosticar, gerir e, em última instância, superar. A tese central é que a capacidade do socialismo científico de integrar e transcender essas tensões é a prova de sua vitalidade e de sua aptidão para guiar a China rumo à plena realização do “Sonho Chinês” de revitalização  nacional, oferecendo um modelo alternativo de desenvolvimento para a humanidade.

    Este ensaio, portanto, busca transcender a mera descrição para se engajar em uma análise marxista, buscando extrair as lições teóricas e práticas da experiência chinesa para o avanço do socialismo no século XXI. A estrutura do artigo seguirá com a explanação resumida do Pensamento de Xi Jinping como expressão mais avançada do marxismo renovado, a institucionalização da juventude como vanguarda, o Gaokao como mecanismo de justiça meritocrática do atual estágio de transição socialista, dialética do tangping, o protagonismo juvenil nas NQPF e na revitalização das áreas rurais e, por fim, as conclusões sobre as lições de dimensão global deste processo revolucionário.

    A fundamentação teórica do Pensamento de Xi Jinping repousa na premissa inabalável de que o marxismo é uma ciência da verdade e da prática, cuja natureza reside na revelação das leis objetivas do desenvolvimento social. Como enfatizado no discurso comemorativo do 105º aniversário do PCCh, o marxismo não é um dogma estático, mas uma “poderosa arma ideológica para transformar os mundos subjetivo e objetivo” [3]. Esta concepção científica permite ao Partido “liderar o país e a nação para avançar com a lógica do progresso histórico e se desenvolver segundo a tendência atual” [3].

    Xi Jinping argumenta que a vitalidade do socialismo chinês decorre da capacidade do Partido de “combinar sistematicamente os princípios básicos do marxismo com as realidades específicas da China e com sua destacada cultura tradicional” [3]. Este processo de sinização não é apenas uma adaptação cultural, mas uma exigência científica para que a teoria mantenha sua eficácia prática. Ao “revelar e aplicar a verdade na resolução das contradições sociais”, o marxismo renovado de Xi Jinping demonstra sua superioridade como guia para a ação, transformando a “vontade de ferro” do Partido em conquistas materiais concretas para o povo e para a nação [3].

    O PCCh articulou de forma sistemática os princípios fundamentais do marxismo-leninismo às condições concretas da realidade chinesa e ao rico legado de sua cultura tradicional, promovendo de modo concomitante e continuado a adaptação à cultura chinesa e à modernização do marxismo. Esse processo resultou na formulação do Pensamento de Mao Zedong, da Teoria de Deng Xiaoping, da Teoria das Três Representações, da Perspectiva Científica do Desenvolvimento e do Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era, ampliando significativamente o desenvolvimento teórico e a capacidade explicativa do marxismo [3].

    A juventude, nesse contexto, é convocada a abraçar o marxismo não como uma doutrina abstrata, mas como a ciência social da construção do futuro. Ao dominar as leis do desenvolvimento histórico, os jovens tornam-se capazes de “navegar sem se desviar do rumo”, mesmo em meio às “incertezas e fatores imprevisíveis” do cenário global contemporâneo [3]. A adesão ao Partido e o compromisso com a modernização chinesa são, portanto, atos de razão científica, fundamentados na compreensão de que o socialismo é o único caminho capaz de realizar a grande revitalização da nação chinesa.

    Em seu discurso, realizado em 01 de julho de 2026, por ocasião dos 105 anos de fundação do PCCh, o Presidente Xi Jinping destacou mais uma vez a contribuição estratégia da juventude para a revitalização da nação chinesa.

    “A juventude é a força vital para alcançar a grande revitalização da nação chinesa. Todo o Partido deve valorizar, cuidar e apoiar a juventude, criando as condições para seu crescimento e desenvolvimento. Nesta nova era, a juventude chinesa deve ouvir com firmeza o Partido e seguir seu exemplo, fixar metas ambiciosas, assumir com valentia as responsabilidades da época, integrar suas aspirações pessoais na causa do Partido e do país, aproveitar cada minuto e valorizar sua juventude, correr com sucesso a histórica corrida de relevos neste novo caminho, e abrir o caminho com sua juventude, deixando brilhar seus ideais!” [3]

    Ao destacar a juventude como “força vital para alcançar a grande revitalização da nação chinesa”, Xi Jinping reafirma uma concepção marxista segundo a qual as novas gerações constituem sujeito histórico indispensável à construção socialista. Nessa perspectiva, a juventude não é concebida apenas como uma etapa biológica da vida, mas como uma força política, social e produtiva chamada a assumir a missão histórica de assegurar a reprodução e o desenvolvimento do socialismo com características chinesas. A orientação para que o partido cuide e apoie os jovens contrasta fortemente com a realidade dos jovens de países capitalistas, cada vez mais legados a própria sorte e sem perspectivas promissoras de futuro; países onde  “Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção”[4] . Enquanto isto no socialismo chinês os jovens são convidados a integrar suas aspirações individuais aos objetivos do país e expressar a compreensão de que a realização pessoal encontra seu sentido mais elevado na participação consciente do projeto coletivo da nação. Assim, a formação política, o compromisso com o trabalho, a disciplina, a inovação e o patriotismo socialista tornam-se elementos fundamentais para preparar uma geração capaz de conduzir a modernização chinesa, fortalecer a soberania nacional e contribuir para uma grande revitalização da nação chinesa, concebida como etapa histórica da transição ao socialismo sob a liderança do Partido Comunista da China.

    A Institucionalização do Sujeito Político: participação  juvenil na construção do socialismo

    A adesão da juventude ao Partido Comunista da China (PCCh) e à Liga da Juventude Comunista (LJC) transcende a mera filiação organizacional; ela se configura como a institucionalização do sujeito político revolucionário, um processo fundamental para a perenidade e a vitalidade do socialismo científico na China. O PCCh, com mais de 100 milhões de membros, demonstra uma capacidade ímpar de atrair e integrar as novas gerações, especialmente os quadros mais qualificados e engajados. A LJC, com seus 78,3 milhões de membros, atua como o reservatório estratégico da vanguarda juvenil, forjando os futuros líderes e gestores que darão continuidade ao projeto de revitalização nacional [5].

    Sob a ótica do marxismo renovado de Xi Jinping, a filiação partidária não é um ato pragmático de ascensão individual, mas uma escolha histórica consciente, uma manifestação da práxis revolucionária onde o indivíduo se funde com a vontade coletiva da classe trabalhadora e da nação. O princípio da adesão é o dever de “servir ao povo com todo o coração” [3]. Neste contesto o rigoroso processo de seleção para novos membros, exige excelência acadêmica, engajamento social e profundo estudo teórico, não visa apenas a meritocracia burguesa, mas a formação de uma força dirigente de vanguarda imbuída dos princípios do materialismo dialético e histórico. O partido exige disciplina rigorosa de seus membros e eficiência na concretização de tarefas e metas. A formação teórica é permanente e reforçadas por campanhas de formação temáticas. Esta é a garantia de que a reprodução geracional do Partido e de sua estratégia revolucionária.

    Xi Jinping enfatiza que a juventude é a “esperança do Partido e do país”, e que o PCCh deve “cultivar sucessores que sejam leais à causa do Partido, tenham caráter moral nobre, dominem habilidades profissionais e sejam cheios de vigor” [6]. Esta exortação não é retórica vazia, mas a base para uma estratégia de longo prazo que assegura a renovação geracional da liderança, garantindo que o marxismo continue a ser a bússola para a construção do socialismo com características chinesas. A juventude, ao aderir ao Partido, não apenas busca uma carreira, mas abraça uma vocação histórica. Em cada local, fabrica, escola, universidade ou aldeia, os jovens membros do partido buscam assegurar o cumprimento do 15o. Plano Quinquenal e o plano e metas de sua localidade, tornando-se coautora do grande projeto socialista de rejuvenescimento nacional.

    O Gaokao Forjando a Vanguarda Intelectual

    No sistema socialista chinês, o Gaokao (Exame Nacional de Acesso ao Ensino Superior) transcende sua função meramente avaliativa para se consolidar como um mecanismo de justiça meritocrática socialista, um pilar fundamental na seleção e formação da vanguarda intelectual e técnica da nação. Longe de ser um instrumento de reprodução das desigualdades de classe, como frequentemente ocorre em sistemas educacionais capitalistas, o Gaokao é defendido como a via mais equitativa para a ascensão social e para a identificação dos talentos mais promissores, independentemente de sua origem socioeconômica.

    O Gaokao é a manifestação prática da crença de que o talento e o esforço individual, quando canalizados para o serviço da sociedade, são os verdadeiros motores do progresso. Ele representa um rito de iniciação social que forja o caráter, a disciplina e a resiliência necessários para enfrentar os desafios da construção do socialismo com característica chinesas. Para milhões de jovens, especialmente aqueles provenientes de áreas rurais e famílias de trabalhadores, o sucesso no Gaokao não é apenas uma conquista pessoal, mas a materialização da promessa socialista de mobilidade ascendente, permitindo-lhes contribuir diretamente para o desenvolvimento das Forças Produtivas de Nova Qualidade (NQPF) [7].

    Contudo, a intensidade da competição inerente ao Gaokao não é vista como uma falha – na perspectiva do igualitarismo- , mas como uma contradição dialética inerente a seleção dos talentos mais destacados. Na cultura chinesa é dessa pressão que se forja a “vontade de ferro” e a capacidade de superação que o Partido exige de seus quadros. A experiência do Gaokao, portanto, não apenas avalia o conhecimento, mas molda uma mentalidade de alta performance, resiliência e compromisso com a excelência, características indispensáveis para a liderança da China na Nova Era. A juventude que emerge desse processo está preparada para assumir os postos de responsabilidade e inovação, consciente de que seu sucesso individual é indissociável do rejuvenescimento coletivo da nação.

    A Dialética do Tangping e a Síntese da Prosperidade Comum

    É no seio desse ímpeto revolucionário, impulsionado pela vanguarda juvenil e pelas Forças Produtivas de Nova Qualidade, que emergem as contradições inerentes a qualquer processo de transformação social acelerada. O fenômeno do “tangping” (deitar-se) e o conceito de neijuan (involução) não devem ser interpretados como falhas estruturais do socialismo chinês, mas como manifestações dialéticasdas tensões entre as exigências de alta performance e as aspirações individuais em uma sociedade em rápida evolução [8].

    O tangping, que se traduz em uma recusa de alguns jovens em participar da “corrida de ratos” social e profissional, é uma reação à exaustão gerada por um sistema que demanda esforço contínuo e sacrifício. A “involução” descreve a competição intensa onde o esforço adicional não resulta em ganhos proporcionais, levando a um esgotamento sem progresso real. Sob uma perspectiva marxista esses fenômenos podem ser vistos como uma forma de alienaçãoem relação ao trabalho, onde o indivíduo percebe que seu esforço é desproporcional ao seu bem-estar, como típico das contradições do modo de produção capitalista, e sua presença relativa ao socialismo de mercado no caso chines.

    No entanto, o pensamento de Xi Jinping, como ciência do socialismo, não ignora essas contradições. Pelo contrário, ele oferece as ferramentas teóricas e práticas para sua síntese. A resposta do Estado chinês não é a repressão, mas a reorientação e a intervenção científica para garantir que o desenvolvimento sirva ao bem-estar humano. A política de “Prosperidade Comum surge como a principal estratégia para mitigar as desigualdades e reduzir a pressão sobre a juventude, garantindo que os frutos do desenvolvimento sejam compartilhados de forma mais equitativa [9].

    Quadro 1: Gerenciamento Dialético das Contradições Sociais

    ContradiçãoManifestação SocialResposta do PCCh
    Esforço vs. Bem-EstarTangping (desengajamento passivo)Política de “Prosperidade Comum”, regulação do mercado de trabalho, foco na qualidade de vida
    Competição vs. EquidadeNeijuan (involução, competição exaustiva)Reforma educacional (redução da carga de deveres), incentivo ao desenvolvimento rural, combate à desigualdade
    Individual vs. ColetivoAspiracões pessoais vs. metas nacionaisIntegração dos sonhos individuais ao “Sonho Chinês”, valorização do serviço à pátria

    Fonte: Elaborado pelo autor.

    Essa abordagem demonstra a capacidade do PCCh com a liderança do Presidente Xi Jinping de adaptar-se e evoluir, reconhecendo as tensões sociais como parte integrante do processo de construção socialista e coloca o estado chin6es a serviço do povo. Ao invés de negar as contradições, o Partido as enfrenta dialeticamente, buscando soluções que reforcem a coesão social e a legitimidade do sistema. O tangping, portanto, não é um sinal de fraqueza, mas um desafio que o socialismo científico está apto a transformar em uma nova noção de modernização, com a perspectiva ecológica do desenvolvimento, mais equilibrada e humanizada.

    A Juventude como Vanguarda das Forças Produtivas de Nova Qualidade

    O Pensamento de Xi Jinping postula que o desenvolvimento do socialismo na Nova Era exige a emergência de Forças Produtivas de Nova Qualidade (NQPF), que se distinguem por serem impulsionadas pela inovação tecnológica radical, pela alta eficiência e pela sustentabilidade [10]. Neste cenário, a juventude chinesa não é meramente uma força de trabalho, mas a vanguarda consciente e os construtoresdessas NQPF, encarnando a síntese entre o conhecimento científico e a práxis revolucionária.

    A inserção massiva de jovens em postos de responsabilidade em setores estratégicos, como o programa espacial, a inteligência artificial (IA) e a biotecnologia, não é um fenômeno acidental, mas o resultado de uma política deliberada de Estado que reconhece na energia e na criatividade juvenil o motor da modernização socialista. A média de idade notavelmente baixa dos engenheiros e cientistas envolvidos em missões espaciais chinesas, por exemplo, que gira em torno de 33 anos, contrasta com a demografia de agências espaciais ocidentais [11]. Este dado não apenas reflete a vitalidade da ciência chinesa, mas também a confiança do Partido na capacidade da juventude de liderar a revolução tecnológica.

    Quadro 2: Juventude Chinesa, Protagonismo nas Forças Produtivas de Nova Qualidade (Estimativas 2024-2025)

    Setor EstratégicoContribuição Juvenil (Sub-35)Significado para as NQPF
    Programa Espacial~60-70% da força técnicaLiderança em engenharia de sistemas, controle de missão e exploração de fronteiras tecnológicas.
    Inteligência Artificial>80% em Startups e P&DDesenvolvimento de algoritmos avançados, aplicações práticas e superação de gargalos tecnológicos.
    Administração Local e RuralCrescente em quadros de aldeiaAplicação de gestão moderna e tecnologia para a superação da contradição cidade-campo e o desenvolvimento equilibrado.
    Energia Verde e BiotecnologiaProtagonismo em P&DInovação em fontes de energia renováveis, materiais avançados e soluções biotecnológicas para a sustentabilidade.

    Fonte: Elaborado com base em dados da Xinhua, CNSA e relatórios de inovação (2024-2025).

    Essa estratégia de “dar passagem aos jovens” (qingnian caijun) é um testemunho da visão de longo prazo do PCCh, que entende que a sustentabilidade do socialismo científico depende da constante renovação de seus quadros e da incorporação das mentes mais brilhantes. Para um jovem engenheiro em Shenzhen ou um cientista em um laboratório de Pequim, o sucesso de um novo chip ou de uma descoberta biotecnológica não é apenas uma vitória pessoal, mas uma contribuição direta para a soberania nacional e para a demonstração da superioridade do modelo socialista de desenvolvimento. A juventude, assim, não apenas participa, mas lidera a construção das Forças Produtivas de Nova Qualidade, solidificando o caminho para o rejuvenescimento nacional e a plena realização do “Sonho Chinês”.

    A Juventude na Revitalização Rural

    O Pensamento de Xi Jinping, em sua busca pela “Prosperidade Comum” e pelo desenvolvimento equilibrado, aborda de forma dialética a histórica contradição marxista entre cidade e campo. A estratégia de Revitalização Rural não é meramente uma política econômica, mas um projeto de transformação social profunda, onde a juventude é novamente convocada a atuar como a vanguarda consciente. Longe de ser um êxodo forçado, o incentivo ao retorno de jovens graduados e qualificados para as áreas rurais é apresentado como uma práxis revolucionária que visa superar as disparidades regionais e construir um socialismo mais harmonioso [12].

    Esses “jovens agricultores” ou quadros de aldeia, munidos de conhecimentos tecnológicos e de gestão moderna, são os agentes da modernização do setor agrário. Eles introduzem inovações em e-commerce, agricultura de precisão e gestão de cooperativas, transformando o campo chinês em um polo de desenvolvimento sustentável. Os jovens agricultores são empoderados como mediadores geracionais das inovações tecnológicas da agricultura chinesa. Este movimento não é um “sacrifício” individual, mas uma contribuição consciente para a construção da infraestrutura socialista que eleva a qualidade de vida de milhões de camponeses, demonstrando a capacidade do marxismo renovado de Xi Jinping de resolver problemas concretos através da mobilização das massas, lideradas pela juventude esclarecida.

    Ao engajar-se na revitalização rural, a juventude não apenas aplica seus conhecimentos técnicos, mas também reforça os laços sociais e culturais com suas comunidades de origem, combatendo a alienação urbana e promovendo uma distribuição mais equitativa dos recursos e oportunidades. Este é um exemplo vívido de como o socialismo científico chinês, através da ação da juventude, busca a síntese entre o desenvolvimento das forças produtivas e a transformação das relações sociais de produção, garantindo que o progresso tecnológico sirva ao bem-estar de toda a sociedade, e não apenas de uma parcela privilegiada.

    Educação Ideológica e Política

    A solidez do projeto de revitalização nacional e a capacidade da juventude de atuar como vanguarda consciente dependem intrinsecamente de uma educação ideológica e política robusta, que, sob o Pensamento de Xi Jinping, foi revitalizada para ser mais “próxima da vida” e “conectada à realidade” [13]. Longe de um adestramento dogmático, essa educação é concebida como a forja do caráter socialista, um processo contínuo de internalização dos princípios do marxismo renovado e de compreensão da trajetória histórica e dos desafios futuros da nação.

    Nas universidades chinesas, o currículo de marxismo foi aprofundado, não apenas para o estudo dos clássicos, mas para a aplicação do materialismo dialético na análise das complexas relações sociais e econômicas da China contemporânea. A juventude é incentivada a compreender como a teoria marxista explica o sucesso econômico do país, a superação da pobreza extrema e a gestão das contradições inerentes ao desenvolvimento. Ferramentas digitais, como o aplicativo Xuexi Qiangguo (Estudar Xi, Fortalecer o País), são empregadas para disseminar o Pensamento de Xi Jinping de forma interativa e integrada ao cotidiano dos jovens, demonstrando a adaptabilidade do Partido às novas formas de comunicação [14].

    O objetivo primordial dessa educação é criar uma “imunidade ideológica” contra influências externas que possam desviar a juventude do caminho socialista. Ao invés de e meramente restringir ou de proteger, essa imunidade capacita os jovens a discernir criticamente as narrativas ocidentais e a reafirmar a superioridade do modelo chinês. A educação ideológica, portanto, não é um freio à liberdade de pensamento, mas um instrumento científico para a formação de uma consciência de classe avançada, garantindo que a base intelectual da revitalização nacional permaneça sólida, unificada e alinhada com os objetivos de longo prazo do Partido e do povo.

    Considerações Finais

    O presente ensaio procurou analisar o papel da juventude no processo de revitalização da sociedade chinesa a partir do Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era. A análise realizada permitiu demonstrar que a juventude ocupa uma posição estratégica no projeto contemporâneo de desenvolvimento da China, sendo concebida não apenas como beneficiária das políticas públicas, mas como sujeito ativo da modernização socialista, da inovação tecnológica, da revitalização rural e da construção de uma nova etapa histórica do desenvolvimento nacional.

    Os elementos examinados ao longo do texto evidenciam que a participação juvenil está integrada a uma ampla estratégia nacional orientada para o longo prazo. A forte presença dos jovens nas organizações políticas, no sistema educacional, nos setores de ciência e tecnologia, nas Forças Produtivas de Nova Qualidade e nos programas de revitalização rural demonstra a existência de um projeto de país capaz de articular formação humana, desenvolvimento econômico, planejamento estatal e participação social. Ao mesmo tempo, a experiência chinesa revela que os desafios e contradições gerados pelo próprio processo de modernização, expressos em fenômenos como o tangping e o neijuan, são reconhecidos e incorporados ao debate público e à formulação de políticas voltadas para a construção de uma sociedade mais equilibrada e orientada pelo princípio da prosperidade comum.

    Mais do que oferecer respostas acabadas, a experiência chinesa fornece importantes ensinamentos para outras nações que enfrentam desafios relacionados ao desenvolvimento, à soberania nacional e à inclusão das novas gerações. Um primeiro ensinamento refere-se à necessidade de incorporar a juventude ao centro dos projetos nacionais de desenvolvimento. Em vez de tratar os jovens apenas como problema social ou grupo vulnerável, a experiência chinesa demonstra a importância de reconhecê-los como força produtiva, intelectual e política capaz de contribuir para transformações estruturais da sociedade.

    Um segundo ensinamento reside na centralidade da educação pública, da ciência, da tecnologia e da inovação como instrumentos estratégicos para a construção de capacidades nacionais. O investimento sistemático na formação de jovens pesquisadores, engenheiros, técnicos e profissionais qualificados revela que o desenvolvimento não pode ser reduzido às dinâmicas espontâneas do mercado, exigindo planejamento de longo prazo e forte coordenação estatal.

    Para países como o Brasil, marcados por profundas desigualdades sociais, regionais e educacionais, a experiência chinesa suscita reflexões relevantes sobre a necessidade de construir políticas nacionais capazes de articular juventude, desenvolvimento científico, industrialização, soberania tecnológica e inclusão social. O desafio brasileiro consiste em criar oportunidades concretas para que milhões de jovens possam desenvolver plenamente suas capacidades e participar ativamente da construção do futuro nacional, especialmente em áreas estratégicas como educação, pesquisa, agricultura sustentável, indústria avançada, transição energética e economia digital.

    A experiência chinesa também evidencia que o desenvolvimento sustentável requer a articulação entre crescimento econômico, redução das desigualdades e fortalecimento da coesão social. Nesse sentido, a valorização da juventude como protagonista do desenvolvimento nacional constitui uma importante lição para sociedades que buscam superar a dependência econômica, ampliar a justiça social e construir projetos de futuro capazes de mobilizar suas novas gerações.

    Em síntese, a revitalização da sociedade chinesa demonstra que o desenvolvimento nacional não depende apenas de recursos econômicos ou avanços tecnológicos, mas da capacidade de mobilizar as energias criativas da juventude em torno de objetivos coletivos de longo prazo. Ao colocar os jovens no centro de seu projeto de modernização, a China oferece uma experiência histórica cuja análise contribui para o debate internacional sobre desenvolvimento, soberania e construção de alternativas para os desafios do século XXI.

    Em conclusão, o papel da juventude na revitalização da sociedade chinesa é um fenômeno de proporções épicas, moldado por uma ideologia que busca reconciliar o passado milenar, o presente de transformações socialista e o futuro de prosperidade e harmonia entre humanidade e natureza. O marxismo renovado de Xi Jinping fornece o mapa e a bússola, mas é a juventude, com sua energia inesgotável, sua capacidade de inovação e sua formação científica marxista, que está de fato construindo o terreno dessa Nova Era, demonstrando que o socialismo é a ciência da construção de um futuro melhor para a China e para toda humanidade.

    Referências

    [1] SOCIALIST CHINA. Xi Jinping Thought can justly be acclaimed as Marxism for the 21st Century. 2023. Disponível em: https://socialistchina.org/2023/12/27/xi-jinping-thought-can-justly-be-acclaimed-as-marxism-for-the-21st-century/. Acesso em: 02 jul. 2026.

    [2] QITHEORY. Understanding New Quality Productive Forces and Accelerating Development. 2024. Disponível em: https://en.qstheory.cn/2024-05/11/c_985265.htm. Acesso em: 02 jul. 2026.

    [3] XI, Jinping. Discurso en la ceremonia de conmemoración del 105º aniversario de la fundación del Partido Comunista de China. Tradução ao castelhano. Beijing, 2026.

    [4] RUSSO, Renato. Há Tempos. Intérprete: Legião Urbana. In: As Quatro Estações. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1989. 1 CD.

    [5] LIGA DA JUVENTUDE COMUNISTA DA CHINA. Estatísticas de Membros e Atividades de Base. Beijing: Comitê Central da LJC, 2024.

    [6] XI, Jinping. Citações de Xi Jinping sobre jovens. Beijing: Xinhua, 2020. Disponível em: https://portuguese.xinhuanet.com/2020-05/04/c_139027477.htm. Acesso em: 02 jul. 2026.

    [7] MATTOS, T. C. L. “Uma era sem precedentes” e a grande estratégia do sonho chinês de rejuvenescimento da nação. Marília: Universidade Estadual Paulista (UNESP), 2021. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstreams/ee19e47e-fe4e-4a1e-916e-1bdd2c71a969/download. Acesso em: 02 jul. 2026.

    [8] POSSOLLO, J. M. T. da Costa. O Pensamento de Xi Jinping: A Adaptação do Marxismo-Leninismo à China do Século XXI. Lisboa: ProQuest Dissertation Publishing, 2023. Disponível em: https://search.proquest.com/openview/3c555e8068e15bb794d9abbe977d3efe/1. Acesso em: 02 jul. 2026.

    [10] SCIO – State Council Information Office of the People’s Republic of China. Youth of China in the New Era. White Paper. Beijing: Foreign Languages Press, 2022. Disponível em: http://www.scio.gov.cn/zfbps/zfbps_2279/202207/t20220704_130736.html. Acesso em: 02 jul. 2026.

    [11] CNSA – China National Space Administration. Relatório de Desenvolvimento de Talentos e Inovação na Exploração Espacial. Beijing: CNSA, 2024.

    [12]  XI, Jinping. A Governança da China. Beijing: Foreign Languages Press, 2022. v. 4.

    [13] SOCIALIST CHINA. Xi Jinping’s speech marking the centenary of the Communist Youth League. 2022. Disponível em: https://socialistchina.org/2022/05/13/xi-jinpings-speech-marking-the-centenary-of-the-communist-youth-league-of-china/. Acesso em: 02 jul. 2026.

    [14] ISEAS. 2025/19 “Xi Jinping’s “Great Rejuvenation of the Pan-Chinese Nation”. 2025. Disponível em: https://www.iseas.edu.sg/articles-commentaries/iseas-perspective/2025-19-xi-jinpings-great-rejuvenation-of-the-pan-chinese-nation-a-historical-perspective-by-mara-yue-du/. Acesso em: 02 jul. 2026.

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    Nilson Weisheimer – Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pós-Doutor pelo Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Professor do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Professor Permanente do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais (PPGCS / UFRB ). Líder do Núcleo de Estudos em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural (NEAF / UFRB / CNPq) e do Observatório Social da Juventude (OSJ / UFRB / CNPq). Editor Executivo da Revista Princípios. Recebeu o Prêmio CAPES de Teses de Sociologia em 2010. Atualmente exerce a função de Coordenador de Criação e Inovação (CINOVA) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

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