Por Theófilo Rodrigues 

É sabido que a questão ambiental esteve presente desde o início na teoria marxiana e engelsiana. Para os fundadores do materialismo histórico, o capitalismo havia levado o mundo a uma separação entre natureza e sociedade e somente o socialismo poderia promover esse reencontro. Isso é o que dizia o jovem Friedrich Engels, já em 1843, quando previa que a sociedade do futuro iria promover “a reconciliação da humanidade com a natureza e consigo mesma” [1]. Seu jovem parceiro, Karl Marx, nos Manuscritos de Paris, de 1844, formulou ideia semelhante quando sugeriu que somente a suprassunção positiva da propriedade privada seria “a verdadeira dissolução do antagonismo do homem com a natureza e com o homem” [2]. Na Ideologia alemã, texto escrito entre 1845 e 1846, Marx e Engels alertaram para a falta de sentido desse divórcio, pois “enquanto existirem homens, história da natureza e história dos homens se condicionarão reciprocamente” [3]. Em sua obra mais madura, O Capital, Marx retornou ao tema e demonstrou que o capitalismo “desvirtua o metabolismo entre o homem e a terra” [4].

As experiências socialistas do século XX, no entanto, tiveram dificuldades em promover políticas para a superação dessa ruptura metabólica, para o reencontro da sociedade com a natureza, ou, ao menos, trataram essa questão de forma contraditória. É bem verdade que a URSS foi positivamente pioneira em diversos aspectos relacionados à questão ambiental. Vale lembrarmos do Grande Plano Stalinista para a Transformação da Natureza de 1948 – o maior plano de florestamento em toda a história até aquele momento -, da Conferência Bolchevique sobre o Problema da Modificação Climática pelo Homem de 1961 – a primeira conferência do tipo na história -, ou dos inovadores estudos da climatologia soviética. Mas, não obstante as inúmeras inovações sociais e tecnológicas que certamente ficaram de legado do Estado soviético, não se pode ignorar que aquele período foi também o momento do desastre nuclear de Chernobyl, da poluição do Lago Baikal ou do desvio de rios que culminou na seca do Mar de Aral [5].

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O Estado socialista chinês também conviveu com essa contradição no século XX. A rápida industrialização da China, especialmente nas últimas décadas do século XX, foi acompanhada pelo agravamento de diversos problemas ambientais, como a poluição do ar causada pelo uso intensivo do carvão, a contaminação das águas e dos solos, a degradação de ecossistemas, o desmatamento e a perda de biodiversidade. Ou seja, a expansão desordenada da produção industrial e agrícola provocou impactos duradouros sobre o meio ambiente.

Uma inflexão decisiva, no entanto, ocorreu no início do século XXI. Embora o conceito de civilização ecológica tenha sido introduzido oficialmente em 2007, foi a partir da ascensão de Xi Jinping, em 2012, que ele passou a orientar a estratégia nacional de desenvolvimento da China. A partir do conceito de civilização ecológica, o Estado socialista chinês tem buscado demonstrar na última década que o desenvolvimento deve ser medido não apenas pelo crescimento quantitativo da economia, mas também pela qualidade ambiental, pelo bem-estar social e pela sustentabilidade. Esse é o argumento de “Perspectiva ecológica da modernização chinesa”, livro do professor Zhang Yongsheng que acaba de ser lançado no Brasil.

Yongsheng apresenta a civilização ecológica como um novo paradigma de desenvolvimento capaz de responder aos limites históricos da civilização industrial. O autor sustenta que a crise climática, a degradação ambiental e o esgotamento do modelo baseado na expansão ilimitada da produção e do consumo exigem uma redefinição da própria ideia de modernização. Em contraposição ao modelo ocidental, a experiência chinesa propõe integrar crescimento econômico, justiça social e equilíbrio ecológico, tendo como princípio a coexistência harmoniosa entre ser humano e natureza. Para isso, defende uma transformação que envolve mudanças nos valores, nos padrões de produção e consumo, nas instituições públicas e no planejamento estatal, articulando inovação tecnológica, desenvolvimento verde e cooperação internacional. Mais do que uma agenda ambiental, a civilização ecológica é apresentada como uma nova forma de organização da sociedade e um caminho para uma modernização sustentável voltada ao bem-estar coletivo e ao futuro compartilhado da humanidade [6].

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O aspecto mais original da obra talvez seja justamente deslocar o debate ambiental do campo exclusivo da política ecológica para o da teoria da modernização. Em sua interpretação, a crise ambiental não decorre apenas de falhas regulatórias, mas dos próprios fundamentos da civilização industrial. Essa nova perspectiva está registrada oficialmente, como podemos ver no informe ao 20º Congresso Nacional do PCCh feito por Xi Jinping: “Devemos defender e agir segundo o conceito de que ‘águas límpidas e montanhas verdejantes valem tanto quanto montes de ouro e prata’, bem como lembrar de manter a harmonia entre o ser humano e a natureza ao planejar o desenvolvimento do país” [7].

A edição brasileira de “Perspectiva ecológica da modernização chinesa” é fruto da parceria entre a Fundação Maurício Grabois, o Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach) e a editora Anita Garibaldi, com a editora Chongqing. De fato, esta obra é a primeira de uma série de seis livros intitulada Seis Perspectivas da Modernização Chinesa, lançada em 2023 pela Chongqing Publishing House, e que agora está sendo traduzida e publicada no Brasil graças a uma parceria com a Fundação Maurício Grabois.

A publicação dessa coleção em português representa uma oportunidade rara para o público brasileiro conhecer diretamente a formulação teórica chinesa sobre a modernização. Independentemente das posições do leitor, trata-se de uma obra relevante para compreender como a China procura fundamentar conceitualmente sua estratégia de desenvolvimento no século XXI, ampliando o acesso a perspectivas que raramente chegam ao debate brasileiro por meio de traduções diretas de obras produzidas por intelectuais chineses.

Notas:

[1] ENGELS, F. Esboço para uma crítica da economia política e outros textos de juventude. São Paulo: Boitempo, 2021. (p. 167)

[2] MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004. (p. 105)

[3] MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007. (p. 86-87)

[4] MARX, K. O Capital. Livro 1. São Paulo: Boitempo, 2013. (p. 572)

[5] FOSTER, John Bellamy. “Late Soviet Ecology and the Planetary Crisis,” Monthly Review 67, no. 2 (June 2015): 1–20.

[6] YONGSHENG, Zhang. Perspectiva ecológica da modernização chinesa. São Paulo, SP: Fundação Maurício Grabois; Anita Garibaldi, 2026.

[7] Ibid., p. 25.

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Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do Iuperj UCAM, diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach) e editor da revista Princípios.

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