Por Nilton Vasconcelos 

O Brasil tornou-se um dos principais destinos dos investimentos chineses. No texto anterior analisamos a extensão e a diversificação dessas inversões em variados setores da economia, especialmente a indústria automobilística. Neste texto, a pergunta que orienta a análise é outra: a expansão das importações e da produção local está, de fato, promovendo a internalização da cadeia produtiva de veículos elétricos no país, ou se reproduz um padrão histórico de inserção subordinada? A resposta, como se verá, é que os investimentos chineses criam uma oportunidade real, mas seu aproveitamento depende de escolhas de política industrial que o Brasil ainda não fez de forma consistente.

A transição para a mobilidade elétrica

A expansão mundial da indústria de veículos elétricos resulta da combinação de diferentes fatores: a necessidade de redução das emissões de gases de efeito estufa, a transformação tecnológica da indústria automobilística, o avanço das políticas de transição energética e a crescente competição geoeconômica pelo domínio das cadeias produtivas de baterias, semicondutores, equipamentos elétricos e veículos eletrificados.

A China chegou à liderança desse processo depois de décadas de planejamento industrial, investimento público e privado em pesquisa e desenvolvimento e construção de cadeias produtivas integradas. A escala do seu mercado interno permitiu reduzir custos, acelerar a inovação e formar empresas capazes de competir internacionalmente em baterias, veículos elétricos e componentes associados.

O Brasil reúne condições favoráveis para participar dessa transformação: um dos maiores mercados automobilísticos do mundo, matriz energética majoritariamente renovável, experiência industrial acumulada e reservas de minerais estratégicos. Essas condições, porém, não garantem por si só uma inserção qualificada na nova indústria da mobilidade elétrica — e é aqui que está o principal risco do processo.

Leia mais: O que o Brasil pode aprender com a experiência chinesa?

A cadeia produtiva de veículos elétricos concentra seus segmentos de maior intensidade tecnológica e valor agregado nas etapas intermediárias: produção de baterias, eletrônica de potência, sistemas de gerenciamento, desenvolvimento de software e engenharia dos veículos. O risco para o Brasil é reproduzir, na nova economia verde, o padrão que historicamente marcou sua inserção internacional: fornecedor de matérias-primas em uma ponta, mercado consumidor ou montador de produtos tecnológicos na outra.

A disponibilidade de minerais estratégicos só se converte em oportunidade se o país avançar além da extração mineral, para o processamento, a produção de materiais e componentes e, progressivamente, para tecnologias de baterias. Da mesma forma, a instalação de montadoras chinesas só representa avanço efetivo para a indústria nacional se vier acompanhada da expansão da produção de componentes e da formação de fornecedores locais — o que, até aqui, ainda não está garantido.

Políticas públicas e atração de investimentos

A política brasileira de atração de investimentos para o setor automotivo passou a incorporar objetivos de sustentabilidade, inovação e descarbonização. O principal instrumento nesse sentido é o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER), instituído pela Lei nº 14.902/2024 (BRASIL, 2024), que estabelece incentivos e mecanismos para estimular investimentos em eficiência energética, sustentabilidade, pesquisa, desenvolvimento e inovação, e busca modernizar a indústria automobilística nacional, incluindo a incorporação de tecnologias de eletrificação, baterias, eletrônica de potência e software.

Até meados de 2025, 179 empresas estavam habilitadas ao programa, incluindo fabricantes de veículos leves e comerciais, veículos pesados, máquinas agrícolas e rodoviárias, triciclos, quadriciclos e empresas produtoras de autopeças. Esse dado demonstra que para além das empresas chineses, as montadoras e fabricantes já instaladas no território nacional também passaram a disputar os incentivos oferecidos pelo programa, o que indica que o programa está mobilizando o setor como um todo — não apenas os novos entrantes.

O MOVER se articula com outros instrumentos de política industrial, como a Nova Indústria Brasil, que procura recolocar a política industrial e tecnológica no centro da estratégia nacional de desenvolvimento. Mas os incentivos oferecidos pela política industrial precisam ser avaliados não apenas pela quantidade de empresas beneficiadas, mas pelos resultados que produzem em termos de transformação da estrutura produtiva.

Este é o ponto mais delicado. A elevada produtividade e a grande escala da produção chinesa constituem um desafio adicional para a nacionalização da cadeia produtiva. Sem mecanismos específicos de incentivo e contrapartidas para a produção local, as empresas instaladas no Brasil podem continuar dependendo, por período prolongado, da importação de veículos desmontados ou semidesmontados e de componentes de maior valor tecnológico.  

A proteção temporária do mercado interno e a concessão de benefícios fiscais podem contribuir para estimular a produção local. Mas esses instrumentos, isoladamente, não garantem transferência de tecnologia nem formação de capacidades industriais nacionais – para isso, são necessárias políticas específicas.

Investimentos chineses e modernização produtiva

A atual onda de investimentos chineses na indústria automobilística brasileira ainda se encontra na sua fase inicial, o que impede uma avalição conclusiva de seu impacto sobre a modernização produtiva do país. A dimensão dos investimentos anunciados e a velocidade de expansão de empresas como BYD e GWM mostram que existe uma oportunidade real – mas o impacto efetivo dependerá de como essas empresas forem integradas à economia brasileira. Instalar fábricas e  gerar  empregos são efeitos positivos, mas não são suficientes para caracterizar um processo de transformação estrutural.

A questão fundamental é saber se o Brasil conseguirá internalizar progressivamente os setores estratégicos da nova cadeia produtiva – baterias, componentes elétricos e eletrônicos, sistemas de gerenciamento, softwares e outras tecnologias associadas aos veículos eletrificados. A experiência internacional demonstra que os benefícios do investimento direto estrangeiro não são automáticos. Empresas estrangeiras podem aumentar a produção e gerar empregos sem transferir conhecimentos ou desenvolver fornecedores locais de maneira significativa.

Sem políticas capazes de orientar e integrar os investimentos externos à economia nacional, existe o risco de formação de enclaves produtivos, nos quais as atividades de maior intensidade tecnológica permanecem concentradas no exterior.

Leia mais: A longa marcha da modernização chinesa

Por essa razão, os mecanismos de atração de investimentos devem estar articulados a uma estratégia mais ampla de política industrial, tecnológica e de inovação, capaz de coordenar a estruturação das cadeias produtivas e de criar condições para que as empresas instaladas no país ampliem progressivamente suas atividades industriais e tecnológicas. O objetivo deve ser evitar que a produção brasileira fique restrita às etapas finais da cadeia produtiva — como a montagem dos veículos — enquanto os componentes de maior valor tecnológico continuam sendo importados.

As empresas chinesas têm capacidades tecnológicas e produtivas relevantes, sobretudo em veículos elétricos e baterias, e sua presença no Brasil pode ajudar a formar novas cadeias industriais no país. Essa possibilidade, no entanto, não se realiza sozinha: depende de o Brasil construir, agora, a estratégia industrial capaz de transformar a chegada desses investimentos em capacidade produtiva e tecnológica nacional. É esse — e não o volume de capital anunciado — o verdadeiro teste da política de atração de investimentos em curso.

Bibliografia consultada

BRASIL. Lei nº 14.902, de 27 de junho de 2024. Institui o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Programa Mover). In: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l14902.htm

KOTZ. Ricardo Lopes. A corrida por um futuro mais verde: política industrial na cooperação China–Brasil em veículos elétricos e baterias. CEFD China-Latin America Cooperation Working Paper Series. February, 2026. In: https://cefd.eco/en/the-race-for-a-greener-future-industrial-policy-in-china-brazil-electric-vehicle-and-battery-cooperation/

PELLA, A.F. Costa. Relações Comerciais entre Brasil e China a Partir dos Anos 2000: Uma Análise do Conteúdo Tecnológico. RES – Revista de Estudos Sociais v.21, n.42. 2019. In:  https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/res/index

UNCTAD. Relatório de Investimento Mundial 2026. In: https://unctad.org/publication/world-investment-report-2026-international-investment-turbulent-era

**********************

Nilton Vasconcelos – Doutor em Administração Pública, diretor do Cebrach. Foi secretário do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Governo do Estado da Bahia.

Deixe um comentário

Tendência