Por Iago Montalvão

No alto de uma montanha no sudeste da China, numa região cujas tradições filosóficas e culturais remontam a mais de um milênio, onde monges taoístas e budistas construíram templos e elaboraram novas doutrinas, nasceu um conjunto de reflexões que, no final do século XX, passou a ser sistematizado sob o nome de “cultura Hehe” (和合). Os dois caracteres chineses podem ter múltiplos significados, mas, numa tradução simplificada, podem ser compreendidos como “harmonia” e “união”.

Um dos princípios centrais dessa filosofia, herdado dos Analectos de Confúcio, é a expressão “harmonia sem uniformidade” (和而不同, hé ér bù tóng): elementos diferentes podem se unir ou conviver harmonicamente, preservando suas diferenças e criando novas sínteses. Esse princípio pode inspirar a cooperação e o intercâmbio cultural entre os países, especialmente entre o Brasil e a China.

Ainda que tenha aspectos que podem entrar em tensão com o materialismo dialético, essa elaboração foi absorvida pelo Partido Comunista da China (PCCh) como parte importante da cultura milenar chinesa, sobretudo por meio dos escritos e discursos do secretário-geral do Partido e presidente da República Popular da China (RPC), Xi Jinping.

Esse princípio pode inspirar a cooperação e o intercâmbio cultural entre os países, e especialmente entre o Brasil e a China. De fato, para um brasileiro, a ideia soa muito familiar. O Brasil foi construído por muitos povos: os indígenas, que vivem em nossa terra há milhares de anos; os milhões de africanos trazidos à força pela escravidão, cuja resistência e cultura moldaram nossa música, nossa fé e nossa comida; posteriormente imigrantes europeus, árabes e asiáticos. Nossa cultura não é uniforme e nossa formação sociocultural vem justamente desse encontro e dos conflitos que o transformaram.

A China faz parte dessa história. Em 1812, agricultores chineses chegaram ao Rio de Janeiro para plantar chá no Jardim Botânico. Por exemplo, na Floresta da Tijuca, o mirante da Vista Chinesa homenageia sua memória. Nossa amizade é mais antiga do que nossas relações diplomáticas.

Essas relações começaram em 1974. Cinquenta anos depois, em 2024, os presidentes Xi Jinping e Lula decidiram construir uma comunidade de futuro compartilhado China–Brasil por um mundo mais justo e um planeta mais sustentável. É uma formulação interessante, porque põe centralidade em dois grandes desafios do nosso tempo, justiça e sustentabilidade. E é um passo concreto rumo a uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade. Não por acaso, 2026 é o Ano Cultural China-Brasil, escritores, músicos, pintores e cineastas atravessam o oceano nos dois sentidos.

Somos duas grandes nações em hemisférios opostos, mas nossas histórias tem semelhanças importantes. O povo chinês conhece a dor da agressão estrangeira e a força de um povo que se levanta por sua soberania. O Brasil foi colônia por mais de trezentos anos e segue lutando por sua verdadeira independência. Nossa história é marcada pela resistência dos povos indígenas e dos africanos escravizados, e por uma longa luta por um caminho próprio de desenvolvimento.

Os dois povos sabem que uma nação só é verdadeiramente livre quando pode escolher o próprio caminho. E ambos são conhecidos por algo precioso, o calor com que acolhemos os outros.

Os dois países são ricos em recursos naturais e estratégicos para o futuro do planeta. O Brasil é o país mais biodiverso do mundo: abriga de 15% a 20% da biodiversidade do planeta e a maior parte da floresta amazônica. A China é líder mundial em energias renováveis e tecnologias limpas. Poucas parcerias combinam tanta riqueza natural com tanta capacidade de transformação verde. Essa história e essas características compartilhadas nos dão uma responsabilidade compartilhada, sobretudo diante da crise climática.

Já temos bons exemplos. Desde 1988, China e Brasil constroem juntos os satélites CBERS, cujas imagens ajudam o Brasil a monitorar o desmatamento na Amazônia.

A cultura tradicional também importa aqui. A construção chinesa da Civilização Ecológica, inspirada na ideia de “unidade entre o céu/natureza e a humanidade” (天人合一 | tiān rén hé yī) e a sabedoria dos povos indígenas brasileiros, que protegem nossas florestas há milênios, dizem a mesma coisa, somos parte da natureza, não seus donos.

No ano passado, o Brasil sediou a COP30 em Belém, no coração da Amazônia. Sua principal decisão convocou a humanidade a se unir num “mutirão global” contra a mudança do clima. Mutirão é uma palavra de origem tupi, sem tradução direta para outros idiomas. De maneira simplificada, pode ser explicada a partir do exemplo de quando uma família precisa construir uma casa e a comunidade se une para ajudar. Tem a ver com cooperação, atuação conjunta, mutualidade. É algo muito próximo do espírito Hehe, e é exatamente o que a crise climática exige.

O mesmo vale para a pobreza. Em quatro décadas, a China tirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema, quase três quartos da redução global. O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014, voltou a ele e, sob o governo do presidente Lula, saiu novamente em 2025. Quando o Brasil lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no G20, a China decidiu aderir. A fome não é um desastre natural. É um problema político, que pode ser resolvido com vontade política e cooperação.

Por isso a eleição de 25 de outubro importa para além das nossas fronteiras. Numa eleição democrática, o povo brasileiro reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato. No dia seguinte, o Ministério das Relações Exteriores da China o felicitou e reafirmou a disposição de seguir construindo, junto com o Brasil, nossa comunidade de futuro compartilhado.

Esse resultado significa que o Brasil continuará defendendo o multilateralismo, a paz, o combate à fome e a proteção da Amazônia. Significa que a amizade entre o Brasil, a China e os povos do Sul Global continuarão a crescer. Num mundo marcado por guerras e unilateralismo, é um motivo de esperança.

Há um ditado chinês de que gosto muito: 众人拾柴火焰高 (zhòng rén shí chái huǒ yàn gāo) — quando todos trazem lenha, a chama sobe mais alto. No Brasil, temos o mutirão. Na China, há o Hehe. Palavras diferentes, de lados opostos do mundo, com a mesma sabedoria: nosso futuro é compartilhado, e só podemos construí-lo juntos.


Iago Montalvão – é doutorando em Economia na Unicamp, pesquisador visitante na Universidade Fudan (Xangai) e integrante do Instituto BRICS+. Foi presidente da UNE entre 2019 e 2021.

Este texto foi apresentado originalmente como discurso no Hehe Culture Forum 2026 (Fórum de Cultura Hehe), realizado em Tiantai, Taizhou (China), em 27 de outubro de 2026.

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