A relação econômica entre China e Brasil cresceu substancialmente nas últimas duas décadas. No comércio exterior, a China passou a ocupar, em 2004, a posição de terceiro principal parceiro comercial do Brasil e, cinco anos depois, superou os EUA, consolidando-se como o maior parceiro comercial do Brasil, posição que mantém desde então. Diferentemente do saldo negativo obtido com o comércio bilateral com os EUA, com a China a balança foi amplamente superavitária nos últimos 20 anos.
A expansão das relações comerciais, entretanto, não eliminou uma assimetria estrutural que permanece como um dos principais desafios da relação bilateral. A pauta brasileira de exportações continua fortemente concentrada em commodities agrícolas, minerais e produtos pecuários, enquanto as importações provenientes da China possuem maior participação de bens manufaturados e de produtos de maior conteúdo tecnológico, entre eles máquinas e equipamentos, produtos eletrônicos, veículos eletrificados e produtos químicos.
A superação dessa assimetria está diretamente relacionada à capacidade brasileira de ampliar sua base produtiva e tecnológica, elevando sua participação em segmentos industriais de maior valor agregado.
Além do crescimento do comércio, os investimentos chineses no Brasil também registraram significativa expansão a partir de 2010. Em 2025, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o Brasil tornou-se o principal destino dos investimentos chineses no exterior, recebendo 6,1 bilhões de dólares em novos aportes.
O resultado representou um crescimento expressivo em relação ao ano anterior e colocou o Brasil entre os principais destinos da internacionalização das empresas chinesas. Estados Unidos, Guiana, Indonésia e Casaquistão também figuraram entre os países que receberam volumes significativos de investimentos proveniente da China.
Esse desempenho deve ser analisado, entretanto, em perspectiva. Os US$ 6,1 bilhões investidos por empresas chinesas representaram apenas uma parcela do investimento direto estrangeiro total recebido pelo Brasil em 2025. Segundo dados da UNCTAD – órgão das Nações Unidas voltado para o Comércio e Desenvolvimento, o país recebeu aproximadamente US$77 bilhões em investimentos diretos proveniente de todas as origens, consolidando-se entre os cinco principais destinos mundiais de investimento estrangeiro naquele ano.
Quando se analisa o estoque acumulado de investimento direto no país, a posição da China é bastante diferente. Segundo o Relatório de Investimento Direto do Banco Central do Brasil, considerando a origem imediata dos recursos, o estoque de investimentos estrangeiros no Brasil alcançou aproximadamente US$1,1 trilhão em 2024.
A Europa concentrava 59,1% desse estoque, seguida pela América do Norte com 26,1%. Considerados individualmente, ao Estados Unidos figuravam como principal investidor, respondendo por 22,7% do estoque total.
A China, apesar do crescimento recente de seus investimentos, ainda não figurava entre os dez principais investidores considerado o estoque acumulado, adotando o critério da origem imediata dos recursos pelo Banco Central. Esse dado, contudo, deve ser interpretado com cautela, uma vez que a origem imediata do capital nem sempre corresponde ao controlador final do investimento, especialmente em operações realizadas por holdings e empresas sediadas em terceiros países.
A expansão dos investimentos chineses no Brasil também se caracteriza por sua crescente diversificação setorial. Os investimentos abrangem atividades relacionadas à geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, mineração, petróleo, indústria automobilística, fabricação de equipamentos elétricos e eletrônicos, tecnologia da informação, obras de infraestrutura, transporte, infraestrutura portuária e agronegócio.
No acumulado de investimentos chineses, o setor elétrico ocupa posição de destaque, especialmente em razão das aquisições realizadas por empresas chinesas nos diversos estágios deste setor.
A presença chinesa pode ser agrupada, de forma geral, em três grandes áreas. A primeira está relacionada aos recursos naturais e inclui setores como petróleo, mineração e agronegócio. A segunda concentra-se na infraestrutura e na energia, abrangendo geração e transmissão elétrica, transportes e obras de infraestrutura. A terceira, de expansão mais recente, está associada às atividades industriais e tecnológicas, incluindo a indústria automobilística, os veículos elétricos, equipamentos elétricos, eletrônica e tecnologia da informação.
Essa diversificação é relevante porque o impacto econômico dos investimentos estrangeiros depende não apenas de seu volume, mas também do setor em que são realizados e do grau de integração que estabelecem com a estrutura produtiva nacional.
No setor ferroviário, destaca-se a participação de empresas chinesas em consórcios responsáveis por projetos de infraestrutura, entre eles o Trem Intercidades que ligará São Paulo a Campinas e o Trem Intermetropolitano entre Jundiaí e Campinas. No transporte ferroviário registra-se a aquisição de cerca de um mil vagões e locomotivas para transporte de grãos e açúcar até o Porto de Santos. A presença chinesa nesses empreendimentos demonstra o avanço das empresas do país também no segmento de infraestrutura de maior complexidade tecnológica.
Em 2025, os investimentos chineses abrangeram projetos em vinte estados brasileiros. São Paulo concentrou o maior número de projetos, seguido por Minas Gerais e Pará. Entre os segmentos que apresentaram maior dinamismo destacaram-se a mineração, energias renováveis e a mobilidade elétrica.
A expansão dos investimentos em energia verde inclui atividades relacionadas às fontes hidrelétrica, solar e eólica, bem como à produção de veículos elétricos e aos sistemas associados à transição energética.
Entretando, a simples ampliação dos investimentos não garante uma alteração na composição do Brasil nas cadeias internacionais de valor. A possibilidade de modificar a composição das exportações brasileiras, reduzindo a dependência de commodities e ampliando a participação de bens e serviços de maior conteúdo tecnológico, está diretamente relacionada à capacidade do país de desenvolver e internalizar tecnologias.
Nesse sentido, a atração de investimentos estrangeiros deve estar articulada a políticas industriais, tecnológicas e de inovação capazes de promover a transferência e, sobretudo, a absorção e o desenvolvimento de conhecimentos e capacidades produtivas no território nacional.
A nova presença chinesa na indústria automobilística
A indústria automobilística constitui um dos setores em que o novo estágio dos investimentos chineses se apresenta de forma mais evidente.
A China consolidou-se como uma das principais potências mundiais da indústria automobilística e vem ampliando rapidamente sua participação nos mercados internacionais. Essa expansão está particularmente associada aos veículos de nova energia — categoria que inclui principalmente veículos elétricos a bateria e híbridos.
Na América Latina, o Brasil é o principal mercado para as montadoras chinesas. Empresas como BYD, GWM, Changan e outras passaram a ampliar sua presença comercial e industrial no país, atraídas pelo tamanho do mercado brasileiro, pela tradição da indústria automobilística e pelas oportunidades abertas pela transição para a mobilidade elétrica.
A Chery foi uma das primeiras montadoras chinesas a estabelecer uma operação industrial no Brasil no país. Inicialmente instalada em Jacareí, no estado de São Paulo, a empresa posteriormente ampliou sua presença por meio da associação com a CAOA, formando a CAOA Chery e consolidando uma importante base industrial também em Anápolis, Goiás.
A nova onda de investimentos chineses, entretanto, ganhou maior dimensão com a chegada da BYD e da GWM.
Em outubro de 2025, a BYD a primeira etapa de seu complexo industrial em Camaçari, na Bahia, instalado na área anteriormente ocupada pela Ford. A empresa iniciou a montagem de veículos eletrificados e, em junho de 2026, anunciou ter alcançado a marca de 100 mil veículos produzidos na unidade.
Esse resultado demonstra a rapidez da expansão da operação da empresa no país. Entretanto, é importante distinguir a montagem de veículos da plena nacionalização da produção. A operação de Camaçari foi inicialmente estruturada com a utilização de kits importados, em regimes de produção como SKD e CKD, o que significa que uma parcela significativa dos componentes e sistemas continua sendo produzida no exterior.
A questão central, portanto, não é apenas a quantidade de veículos montados no Brasil, mas o ritmo e a extensão da incorporação de componentes, fornecedores, engenharia e tecnologia nacional à cadeia produtiva.
Também em 2025, a GWM inaugurou sua unidade industrial em Iracemápolis, São Paulo, instalada na antiga fábrica da Mercedes-Benz. A operação visa produzir veículos adaptados ao mercado brasileiro, incluindo híbridos e outras tecnologias de motorização.
A empresa também iniciou investimentos relacionados à implantação de uma nova unidade industrial em Aracruz, no Espírito Santo, ampliando sua presença produtiva no país.
Outras montadoras chinesas também vêm anunciando investimentos e projetos industriais no Brasil. A Changan estabeleceu uma parceria estratégica com a brasileira CAOA voltada à expansão de sua presença no mercado brasileiro e desenvolvimento de uma plataforma industrial associada às novas tecnologias de mobilidade.
A GAC que anunciou planos para iniciar a produção de veículos no Brasil apartir de 2027, utilizando instalações industriais localizadas em Catalão, Goiás, onde atualmente são produzidos veículos de outras marcas.
A Omoda & Jaecoo, pertencente ao Grupo Chery, também anunciou sua intensão de iniciar a produção no Brasil a partir de 2027. A Geely, por sua vez, ampliou sua presença no país por meio de uma associação com a Renault, adquirindo participação na sua operação em São José dos Pinhais, Paraná, para a produção e comercialização de veículos.
Outras montadoras chinesas, como Jetour, Leapmotor, BAIC e MG têm ampliado ou anunciado presença no mercado nacional, seja por meio de importações, parcerias com fabricantes já instalados ou projetos de produção local.
O conjunto desses movimentos indica que o Brasil poderá tornar-se, nos próximos anos, um dos principais centros de produção de veículos chineses fora da Ásia. Projeções e anúncios empresariais apontam para investimentos capazes de ampliar significativamente a capacidade produtiva instalada no país.
Conclusão
A expansão dos investimentos chineses no Brasil inaugura uma nova etapa nas relações econômicas entre os dois países.
Depois de um período marcado principalmente pela intensificação do comércio bilateral e pela crescente presença chinesa nos setores de energia, petróleo e recursos naturais, observa-se agora uma diversificação dos investimentos em direção à mineração, às energias renováveis, à infraestrutura e, particularmente, à indústria automobilística e à mobilidade elétrica.
Os dados recentes demonstram a importância dessa nova fase. O Brasil tornou-se um dos principais destinos dos investimentos chineses no exterior e passou a receber uma nova geração de empresas chinesas interessadas não apenas em vender produtos no mercado brasileiro, mas também em estabelecer operações industriais no país.
Esse movimento, entretanto, não deve ser interpretado automaticamente como sinônimo de modernização tecnológica.
O volume de investimentos e o número de fábricas instaladas são indicadores importantes, mas não revelam, por si só, o impacto desses investimentos sobre a estrutura produtiva nacional.
A questão decisiva é saber em que medida a presença das empresas chinesas contribuirá para ampliar as capacidades produtivas, tecnológicas e de inovação existentes no Brasil.
Este assunto será aprofundado no próximo texto.
Bibliografia consultada
Banco Central do Brasil. Relatório de Investimento Direto 2025. In: https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/relatorioidp/RelatoriaID2024/RID_2025.pdf
CEBC. Conselho Empresarial Brasil-China. Investimentos Chineses no Brasil Reindustrialização e Transição Energética 2024. Rio de Janeiro, setembro, 2025. In: https://www.cebc.org.br/investimentos-chineses-no-brasil/
CEBC. Conselho Empresarial Brasil-China. Investimentos Chineses no Brasil 2025: Mineração, Mobilidade Elétrica e Renováveis. Rio de Janeiro, abril, 2026. In: https://www.cebc.org.br/investimentos-chineses-no-brasil/
GLOBAL TIMES. Como os NEVs chineses ganham espaço nos mercados globais, proporcionando mobilidade mais verde e inteligente. In: https://globaltimes.cn/page/202608/1369401.shtml
**********************
Nilton Vasconcelos – Doutor em Administração Pública, diretor do Cebrach. Foi secretário do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Governo do Estado da Bahia.




Deixe um comentário