Por André Victor Mendes Rosa

Shenzhen, cidade situada no sudeste da República Popular da China, na província de Guangdong, é hoje um dos principais polos industriais, financeiros, científicos e tecnológicos do mundo. Com mais de 17 milhões de habitantes, ocupa a terceira posição entre as economias urbanas chinesas, atrás apenas de Xangai e Pequim, e sedia gigantes da tecnologia como Huawei, Tencent, DJI, BYD e ZTE, o que lhe rendeu o apelido de “Vale do Silício chinês”. Faz fronteira com Hong Kong ao sul, e sua localização, na foz do Rio das Pérolas, sempre lhe conferiu um lugar de destaque nas rotas de comércio marítimo do sul da China.

Essa posição de vanguarda tecnológica costuma ser narrada como um fenômeno repentino: uma vila de pescadores que, em poucas décadas, teria se transformado em metrópole global por decisão isolada do governo central, a partir de 1979. Essa narrativa, contudo, é imprecisa. Como demonstra a pesquisa histórica sobre a região, Shenzhen não surgiu do nada — sua ascensão contemporânea é a continuidade de um papel geoestratégico que a área já desempenhava havia séculos.

Um histórico geoestratégico secular

A região onde hoje se localiza Shenzhen já possuía relevância estratégica desde a Dinastia Qin (221-206 a.C.), quando integrava a chamada Nanhai Jun, ou Prefeitura do Mar do Sul, no processo de unificação territorial promovido pelo primeiro imperador chinês. Séculos depois, durante a Dinastia Song (960-1279), a área abrigou o Porto de Chiwan, entreposto marítimo estratégico na foz do Rio das Pérolas e porta de entrada entre o sul da China e o restante do mundo, testemunhado até hoje pelo Templo Chiwan Tianhou, ali erguido naquele período.

Antes mesmo da pesca de pérolas e da extração de madeira de incenso, a produção de sal já se destacava como a mais antiga atividade econômica da região, com registros de mais de mil anos de antecedência em relação a essas outras indústrias. Ao longo de toda a era imperial chinesa, o monopólio estatal sobre o sal financiou obras de grande porte, da Grande Muralha à Cidade Proibida, e a área que hoje corresponde a Shenzhen — conhecida historicamente pelos nomes de condado de Bao’an e, mais tarde, condado de Xin’an — manteve-se relevante tanto para o comércio quanto para a defesa do império, com a construção de cidades muradas e guarnições militares que protegiam a região.

Essa trajetória secular é o que explica, em boa medida, por que a região foi escolhida em 1979 para ser a vitrine da abertura econômica chinesa: não se tratava de um território sem história ou infraestrutura prévia, mas de uma área que já acumulava séculos de vocação comercial e estratégica, situada exatamente na fronteira com Hong Kong.

A Reforma e Abertura e a escolha de Shenzhen

O ponto de inflexão na história recente da região ocorreu com a política de Reforma e Abertura, iniciada pela liderança chinesa a partir de 1978, sob a condução de Deng Xiaoping. Em dezembro daquele ano, na Terceira Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China, Deng defendeu que determinadas regiões do país deveriam se desenvolver “um passo à frente” das demais, abrindo-se ao aprendizado com países mais avançados em ciência, tecnologia e métodos de gestão. Ainda naquele encontro, ao apresentar uma lista de dez localidades possíveis para sediar experimentos econômicos, Deng mencionou Shenzhen em primeiro lugar.

As raízes dessa política remontam ainda ao projeto das Quatro Modernizações — abrangendo agricultura, defesa nacional, indústria e ciência e tecnologia —, formulado originalmente por Zhou Enlai e posteriormente elevado à condição de política de Estado sob Deng Xiaoping. Antes da decisão final, missões diplomáticas chinesas visitaram países da Europa Ocidental e teriam se reunido, ainda em 1978, com o governador colonial britânico de Hong Kong, Murray MacLehose, para tratar da viabilidade de cooperação econômica na região fronteiriça — encontro que resultou no “Relatório de Pesquisa Econômica de Hong Kong e Macau”, primeiro documento a avaliar a instalação de bases de produção voltadas à exportação no antigo condado rural de Bao’an.

Em março de 1979, o Conselho de Estado aprovou a criação do município de Shenzhen, reunindo os 2.020 quilômetros quadrados do antigo condado de Bao’an — território que, à época, contava com pouco mais de 358 mil habitantes, distribuídos majoritariamente por vilarejos agrários. Em julho daquele mesmo ano, o Documento nº 50 do Comitê Central concedeu às províncias de Guangdong e Fujian a chamada “Política Especial, Medidas Flexíveis”, autorizando a criação de zonas especiais em Shenzhen e Zhuhai. A escolha do termo “zona especial” não foi trivial: alternativas como “zona de processamento de exportação” ou “zona de livre comércio” foram descartadas por soarem excessivamente capitalistas ou por remeterem à terminologia usada em Taiwan; prevaleceu, por sugestão do então vice-primeiro-ministro Gu Mu, uma expressão de forte apelo patriótico, já usada para designar distritos administrativos especiais durante a guerra anti-japonesa.

Em agosto de 1980, o Quinto Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional aprovou formalmente o decreto que instituía a Zona Econômica Especial (ZEE) de Shenzhen, ao lado de Zhuhai e Shantou — às quais se somaria posteriormente Xiamen, na província de Fujian. Nascia ali o modelo que se tornaria o laboratório da abertura econômica chinesa.

Planejamento, fases de desenvolvimento e a economia do projetamento

A implantação da ZEE de Shenzhen não foi um processo espontâneo, mas resultado de planejamento estatal deliberado. Quando o município foi criado, em 1979, a infraestrutura local era praticamente inexistente — havia apenas setecentos trabalhadores da construção civil e três pequenas fábricas de concreto e tijolos —, o que levou o governo central a enviar cerca de vinte mil engenheiros para dar início às obras. Sob a liderança de Wu Nansheng, primeiro prefeito e secretário do Partido em Shenzhen, foi elaborado o primeiro Plano Diretor Abrangente de Construção Urbana da cidade, que definia o objetivo de erguer “uma zona econômica especial modernizada liderada pela indústria […] como um novo tipo de cidade fronteiriça”.

O desenvolvimento da cidade pode ser dividido em fases: entre 1979 e 1985, o desafio central foi construir uma cidade atrativa para investidores estrangeiros, com foco em indústrias de alta tecnologia e capital intensivo; já entre as décadas de 1980 e 1990, o planejamento voltou-se para a exportação e a atração de investimento estrangeiro direto, sobretudo de capital oriundo de Hong Kong, Taiwan e da diáspora chinesa. O modelo urbanístico adotado desde o primeiro plano diretor, de 1986, foi o chamado “linear agrupado”, expandindo a cidade em aglomerados ao longo dos corredores de tráfego que hoje formam os distritos de Nanshan, Futian, Luohu e Yantian.

Esse processo de planejamento estatal, orientado à construção de utilidade e de valores de uso para a população, dialoga diretamente com o conceito de “economia do projetamento”, formulado ainda em 1959 pelo economista brasileiro Ignácio Rangel para compreender as transformações no capitalismo e nas economias planificadas do século XX. Sob essa perspectiva, o projetamento é o modo de produção que situa a utilidade — e não apenas o lucro — no centro do cálculo econômico, cabendo ao plano e ao projeto estatal a função de mediar as relações entre benefício e custo. A trajetória de Shenzhen, marcada pela combinação entre iniciativa de mercado e forte direcionamento estatal — refletida em bancos públicos de desenvolvimento, empréstimos estatais bilionários a empresas como a Huawei e investimentos maciços em infraestrutura —, é hoje apresentada como exemplo dessa “Nova Economia do Projetamento” a serviço da modernização chinesa (Jabbour e Dantas, 2021)

A proximidade com Hong Kong e a recuperação do território

Se a escolha de Shenzhen respondia a necessidades de modernização econômica interna, ela também cumpria uma função geoestratégica de longo prazo: preparar as condições para a reintegração de Hong Kong à soberania chinesa. A cidade esteve sob domínio do Império Britânico por mais de um século, desde a assimétrica Primeira Guerra do Ópio (1839-1842), e sua devolução à China, prevista para 1997, era prioridade estratégica do Partido Comunista Chinês — tanto pela importância econômica do território quanto por seu valor simbólico como marco da reunificação nacional.

A proximidade geográfica entre Shenzhen e Hong Kong não foi acidental. Ao situar a Zona Econômica Especial exatamente na fronteira — com a área de Luohu, no cruzamento fronteiriço, designada como centro da ZEE —, a liderança chinesa criou uma plataforma de experimentação econômica capaz de absorver influências, práticas comerciais e capital vindos do território sob administração britânica, ao mesmo tempo em que preparava o terreno político para sua futura reincorporação. A construção de Shenzhen foi, nesse sentido, um elemento importante nas negociações entre a República Popular da China e o Reino Unido para a devolução de Hong Kong, o que ajuda a explicar por que a cidade recebeu prioridade em relação às demais Zonas Econômicas Especiais criadas no mesmo período.

O sucesso desse experimento também serviu para demonstrar, tanto interna quanto externamente, a viabilidade do princípio “Um País, Dois Sistemas”, formulado por Deng Xiaoping em 1984 para orientar a futura relação entre a China continental — de orientação socialista — e os territórios de Hong Kong, Macau e, potencialmente, Taiwan, aos quais seria garantida a manutenção de seus sistemas econômicos capitalistas sob soberania chinesa. Hong Kong foi efetivamente reintegrada ao controle chinês em 1997, consolidando um dos principais objetivos nacionais perseguidos desde o início da Reforma e Abertura.

Considerações finais

A trajetória de Shenzhen desafia a ideia de que seu desenvolvimento tenha sido um fenômeno espontâneo ou desconectado da história. Pelo contrário: a ascensão da cidade como polo tecnológico global — hoje sede de empresas como Huawei e Tencent, protagonista da tecnologia 5G e modelo de planejamento urbano inteligente baseado em big data e internet das coisas — é a continuidade de um papel geoestratégico que a região já exercia havia séculos, agora combinado a um projeto deliberado de modernização nacional. A escolha de Shenzhen como primeira Zona Econômica Especial da China, em 1979, respondeu simultaneamente a três objetivos: testar, em ambiente controlado, a coexistência entre planejamento estatal e mecanismos de mercado; atrair capital, tecnologia e expertise estrangeiros por meio da proximidade com Hong Kong; e preparar as condições econômicas e políticas para a reunificação territorial chinesa, consumada em 1997. Compreender essa história é fundamental para interpretar, com mais precisão, o papel que Shenzhen desempenha hoje na estratégia de desenvolvimento tecnológico e na projeção internacional da República Popular da China.

Referências

CARRION, Raul K. M. A construção do socialismo na China e as reformas econômicas pós-Revolução Cultural. 2004. Monografia (Aperfeiçoamento/especialização em História do Mundo Afro-Asiático) — Faculdade Porto-Alegrense de Educação Ciências e Letras, Porto Alegre, 2004.

DU, Juan. The Shenzhen experiment: the story of China’s instant city. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2020.

HAYES, James. The Hong Kong Region: its place in traditional Chinese history. Journal of the Royal Asiatic Society Hong Kong Branch, v. 14, p. 108-135, 1974.

HU, Richard. The Shenzhen phenomenon: from fishing village to global knowledge city. Londres: Routledge, 2020.

JABBOUR, Elias. China: desenvolvimento e socialismo de mercado. Florianópolis: Labeur, 2020.

JABBOUR, Elias. China: socialismo e desenvolvimento — sete décadas depois. São Paulo: Fundação Maurício Grabois; Anita Garibaldi, 2019.

JABBOUR, Elias; DANTAS, Alexis. Ignácio Rangel na China e a nova economia do projetamento. Economia e Sociedade, v. 30, n. 2, p. 287-310, 2021.

JABBOUR, Elias; DANTAS, Alexis; ESPÍNDOLA, Carlos. Considerações iniciais sobre a “nova economia do projetamento”. Geosul, v. 35, p. 17-42, 2020.

KISSINGER, Henry. Sobre a China. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

MARKS, Robert B. Tigers, rice, silk, and silt: environment and economy in late imperial South China. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

RANGEL, Ignácio. Elementos de economia do projetamento. In: RANGEL, Ignácio. Obras reunidas. Rio de Janeiro: Contraponto, [1959] 2005. p. 355-446.

ROSA, André Victor Mendes. O desenvolvimento da metrópole chinesa de Shenzhen como inferência da nova economia do projetamento. Revista Princípios, n. 171, p. 94-108, set./dez. 2024. DOI: https://doi.org/10.14295/principios.2675-6609.2025.171.006.

ROSA, André Victor Mendes. Shenzhen além do mito: histórico geoestratégico e desenvolvimento no sudeste da China. Prajna — Revista de Culturas Orientais, v. 5, n. 8, jan./jun. 2024. ISSN: 2675-9969.

SCUDERI, Rafaelle. City growth and urban planning: encountering the challenges of population growth. In: JOHNSON, Cathryn; DAVIS, Lawrence S. (org.). The story of Shenzhen: its economic, social and environmental transformation. Nairobi: UN-Habitat, 2019. p. 54-65.

TIEXUN, Leng. Sobre as características fundamentais do princípio “Um País, Dois Sistemas”. Revista de Estudos de “Um País, Dois Sistemas” (Edição Portuguesa), p. 53-64, 2012.

VOGEL, Ezra F. Deng Xiaoping and the transformation of China. Cambridge, Mass.: Belknap of Harvard University Press, 2011.

**************

André Victor Mendes Rosa – Doutorando em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança pela Univer­ sidade Federal Fluminense (UFF); mestre em População, Território e Estatísticas Públicas pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ence-IBGE); especialista em Gestão do Esporte pela Universidade de São Paulo (USP), e licenciado em Geografia pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP-Uerj).

Deixe um comentário

Tendência